Giovani Trapattoni, comentando um erro clamoroso do guarda-redes da sua equipa disse”…se tirarmos a um jogador o direito de errar, então, o melhor a fazer é acabar com tudo e voltar cada qual para sua casa.”
Os árbitros mais velhos diziam que “o melhor árbitro de todos é aquele que menos erra”
Mas, então, é possível arbitrar um jogo sem cometer erros? Sobretudo, desde que a televisão deu a possibilidade de ver coisas que objectivamente escapam ao olho humano? Infelizmente a resposta é fácil: não.
Os erros sempre existiram e continuarão a existir. Basta avivar a memória ou folhear as páginas dos jornais, mesmo de há muitos anos, quando se falava das coisas que tinham sido vistas com os próprios olhos e não da televisão, para encontrar acalorados debates acerca de erros cometidos pelos árbitros.
A chamada tese, indagação dos árbitros tanto estava nos títulos dos jornais da época como está hoje.
A solução tecnológica prestes em ser implementada, que eu concordo, apesar de vir ajudar a tomada de decisão dos árbitros, pessoalmente, não acredito ser o antibiótico fatal para erradicar definitivamente o erro arbitral, tendo em conta a nossa cultura desportiva. Somos mais adeptos do clube do que adeptos do futebol.
Enquanto não resolvermos este problema a coisa não ficará fácil.
Acredito muito mais na necessidade que os árbitros têm de se prepararem o melhor possível com a consciência de que, tal como um grande campeão pode errar na execução de uma grande penalidade, também o árbitro pode cometar um erro.
É um drama terrível, acreditem e eu sei do que falo, mas é importante aprender a viver com o erro cometido. O conhecimento quase imediato que o árbitro tem do erro, sobretudo quando começam as corrosivas referências que a falha involuntária cometida foi grave e influenciou o resultado da partida. A insatisfação pessoal que resulta do facto de não se ter mostrado á altura da função que desempenha, de não ter conseguido demonstrar aquilo que se tinha preparado para fazer com o treino é um drama de difícil digestão.
Imagine o leitor o estado de alma, semana difícil, provavelmente noite mal dormida, que Bryan Ruiz terá experimentado após o “muito comentado erro” que eventualmente terá custado a derrota do seu clube no derby da capital portuguesa. Gostei de ver o capitão da sua equipa a correr para o mesmo, abraçando-o, confortando-o, indiciando que o jogo continua e que existe mais vida para além daquele erro. Grande capitão.
Igualmente, Casillas, campeão do mundo e da europa, a insatisfação pessoal que sente cada vez que olha para o ecrã de TV, percebendo o erro que terá cometido num jogo na capital do Minho.
Algo terá falhado. Algumas variáveis não foram possíveis controlar. Aceito, e eu próprio sinto, serem de difícil compreensão. O cansaço físico e psicológico, as emoções fortes, pode explicar comportamentos menos consentâneos. Os erros dos jogadores e dos árbitros acorrem geralmente na parte final do jogo. Não querendo, justificar de forma simples os erros dos árbitros, julgo que a compreensão está desequilibrada. Os árbitros também erram. Se não aceitamos isto…
Francisco Costa, Técnico de arbitragem