A astúcia como estratégia de poder Astúcia, s.f.1. Manha ardilosa e subtil 2.Estratagema (Priberam, on line). Raro é o dia em que não saibamos do novo “emprego”, do favorecimento de familiares e amigos, do desaparecimento muito conveniente de provas, do desrespeito pela lei, do uso negligente de bens de todos ou do abuso de poder da parte um governante ou ex-governante. Por alguns dias, o facto ou factos entram no anedotário nacional. Brinca-se em jeito de denúncia e indignação mas consequências, do ponto de vista social e ético, nenhumas. Esperar-se-ia que, a par da acção da Justiça, os cidadãos sentenciassem os infratores penalizando-os do ponto de vista eleitoral. Mas a lógica do sistema é a inversa: nunca um corrupto detentor do poder se sentiu coagido a apresentar justificações e muito menos a entregá-lo.
Tenho a desconfiança de que, no fundo, estes escândalos constituem mais motivos de prestígio do que de censura social. Há um enorme défice democrático assente sobre a desvalorização do bem-comum. São as marcas do fascismo que, por circunstâncias várias mas, sobretudo, porque não houve alternância social dos poderes, a Democracia não soube desfazer. A astúcia tornou-se, por isso, uma verdadeira estratégia de manutenção do poder. À descarada e sem quaisquer pudores, os ex-governantes mantém os seus lugares de controlo e influência política, cobrando os favores, que antes prestaram, usando o que é de todos. A ex-ministra das Finanças, e agora deputada do PSD, arranjou um “emprego” na empresa que cobriu de benefícios mas este é só um exemplo. Esta impunidade advém de duas espécies de máximas muito apreciadas por entre um povo acrítico, triste e pobre: ”No lugar dele, qualquer um fazia o mesmo” e “O que te faz falar é a inveja”. E assim, lá se vai promovendo a ideia de que “os políticos são todos iguais” porque deste modo, os que são honestos e trabalham para o bem comum ficam ofuscados pela “esperteza” dos que tiram proveito da ignorância da maioria.
Isabel Cardoso