Maria Faria Pereira Saí apressada do trabalho. Sábado à noite. Eram 19h20m, subi a Fernão Ornelas, passei pelas arcadas em frente ao Bazar do Povo e logo a seguir a Rua João Gago. Estava frio. O vento que sentia no rosto era mesmo frio. À minha esquerda, na entrada do Banco Totta, no recanto da entrada, os meus olhos batem num cobertor rosa. Ainda olhei duas vezes. Não lhe vi o rosto. Não consegui ver se era homem ou mulher. Mas era um ser humano, ali deitado no chão, embrulhado num cobertor cor-de-rosa. À cabeceira uma embalagem descartável de vinho. Não havia mesa de cabeceira, nem cama. Um quarto de dormir improvisado. Ali debaixo do cofre nocturno, estava um ser humano estendido no chão frio, numa noite fria. A cama deste ser humano, é o chão que pisamos. E não devia ser assim. Não conheço a sua história. Não sei a razão pela qual escolhe a rua para dormir. Não sei se é por opção ou contra este mundo ingrato. Já na paragem, na Avenida do Mar, o vento continuava frio. Os autocarros iam chegando e partindo com os passageiros. Mas, não me saía da cabeça, a imagem do cobertor cor-de-rosa. Todos queriam ir para casa. Chegar a casa comer uma canja quente, beber um chá quente e embrulhar-se numa manta quente. E eu continuava a ver aquela imagem. Um ser humano estendido no chão frio, embrulhado num cobertor rosa. Entrei no autocarro. Sentei-me e foi imaginando como teria sido a vida daquele ser humano. Não seria certamente, o Richard Gere, a interpretar o papel de um ‘homeless’ (sem-abrigo), ou o Cristiano Ronaldo, quando surpreendeu uma criança, e estava disfarçado de mendigo. O que lhe teria acontecido? Haveria alguma razão para escolher como casa sem telhado, as ruas do Funchal! Será que nós falhamos? Será que falham as instituições? Não é a primeira vez, que vejo homens e mulheres a dormirem nos recantos e entradas de alguns edifícios da nossa cidade. E esta situação está a aumentar. Só não vê, quem não quer. Basta dar uma volta pelo nosso Funchal à noite. Não sei quem irá ler este texto. Até talvez não se enquadra neste espaço das cartas do leitor. O meu objectivo é apenas lançar um alerta. Para que aquele cobertor rosa, e todos os outros, tenham uma cama decente. Conforto.