O que se move pelas sombras

As histórias que me contam dão de dez, em termos de drama, requinte e malvadez, às tragédias gregas. O Leviatão, que do mar se emerge e faz tremer a terra, relincha ao clamar das horas. Tornam-se os homens, esmagados uns pelo mastodonte do Estado, dopados outros pelo hálito da cloaca política. E, de repente, o mundo não é mais aquele e todos, por engodo e engano, não se apartam do registo antigo. Não mais que menos de 1% da Humanidade acumula mais riqueza, bem-estar e poder que os restantes 99%, algo que não lembra o diabo. Tanto atuante e atuado, como sujeito e sujeitado, o cidadão nosso de cada dia vai gerindo a inequação global. Impõe-se-nos estar, como diria Nelson Rodrigues, meio-tom acima da rígida normalidade. Tudo afinal não passará da casta a mover-se pelas sombras. Resumo da ópera: Nenhum fantasma valerá a pena. Não há paciência!

Evangelho segundo nossa epístola

Ainda sobre as ‘Cartas’, o afrontamento histórico e existencial que é o amor de Amílcar Cabral e Maria Helena, o afrontamento ao colonialismo, ao racismo e ao colonialismo e o afrontamento à moral fascista do Estado Novo. Subversivo, em plena aceção da palavra, do amar fora do cânone e à revelia da superestrutura, em 1946. Igualmente, subversivo, invertendo as parcelas da equação, amar além do registo da sublevação revolucionária em 1960. E ainda se mantém subversivo o reviver e o reeditar tal amar em 2016, tirando os pingos dos is e trocando os vês pelos bês de certas (des) ordens. A tensão dialética com que se amam todas as formas de amar e de conjugar o verbo e de ainda derrubar bastilhas. Acasalar o evangelho a nossa epístola. Diante da história que não acabou, a dialética ainda do nosso afrontamento existencial.

No cais de ver partir

Estamos embriagados pelas luzes da cidade. Pelo tremeluzir das mil e uma noites. Pelo fosforescente casino, em maqueta, no meio da baía. O recorte marítimo a convidar-se a passeio público. O cais de quatro que não chega a ser uma saudade de pedra. O não haver suficiente poesia para o inaudível grito dos deserdados da terra. Estamos narcotizados pelo esplendor do navio cruzeiro que esventra a paisagem de matizes azuladas. Em nenhum de nós a palavra-chave para as viagens. Em nenhum de nós o protótipo de uma vontade de mudança de matrizes sem cor. Iludem-se os que pensam que as coisas não podem regredir, porque, alegadamente, o Tempo já entrou na dinâmica de “irreversibilidade”. Se elegermos o logro, o embuste e a mentira, tudo recuará ao começo. Quiçá, ante do verbo. O vão...

Filinto Elísio