Se os smartphones, tablets, computadores e a respetiva ligação à internet fazem parte da nossa vida quotidiana e reconhecidamente podem ser um poderoso instrumento de trabalho e de prazer… porque é que estão praticamente banidos da grande maioria das “salas de aula”?

É certo que há algumas experiências pontuais, ainda muito embrionárias, e até se levantou, ultimamente, a possibilidade dos idolatrados exames serem realizados “online”. Contudo, a verdadeira questão é se, no essencial, há ou não uma rotura com um processo pedagógico centrado nos professores e em programas disfuncionais e desajustados da realidade?

Porque é que as nossas crianças e jovens continuam a ir com mochilas com excesso de peso, cheias de manuais cujo preço exorbitante obriga, ano após ano, muitas famílias a fazer contas e a passar privações para que nada falte aos filhos?

Não se trata de deixar de ter manuais em papel e passar e ter os mesmos manuais em formato digital (já existem), embora só por si já ajudasse, nem que fosse por aliviar as costas dos miúdos e os bolsos dos pais. A lógica tem de ser outra, já que o conhecimento é produzido a uma velocidade que temos dificuldade em acompanhar. É preciso ajudar a separar o “trigo do joio” pois, muito do que se produz (esteja na net ou nas estantes das livrarias) é mero “lixo”, seja por ser repetição do que já se sabia, mas com outras roupagens, seja por ser errado ou inócuo e só servir para perder tempo.

A “aula” deve ser uma visita guiada (as tecnologias podem dar uma ajuda) onde o professor tem que ter condições para ser um catalisador de processos de amadurecimento, não impingindo o que “tem em armazém” (muitas vezes fora de prazo) mas ajudando o aluno a levantar e a resolver problemas através do domínio de metodologias e instrumentos de pesquisa e de atuação que lhe permitam desenvolver e operacionalizar as estratégias mais adequadas e não apenas a reproduzir soluções pré-formatadas.

É possível e desejável explorar novos caminhos e processos (veja-se por exemplo as potencialidades de uma lógica tipo Khan Academy). Porém não basta ser diferente e utilizar umas tecnologias e alegar que passámos a estar centrados no aluno. É necessário demonstrá-lo. Ou seja, ou se consegue, de forma personalizada, estimular a criatividade, a autonomia, a montagem de estratégias, a capacidade de adaptação e de pesquisa, a tomada de decisão em situações críticas, etc., desenvolvendo as capacidades e potencialidades de cada um, ou não se consegue e tem de se continuar a tentar...numa lógica de conjetura-refutação e não numa de aventureirismo egocêntrico e irresponsável.

Não devemos ter receio se não dominarmos algumas tecnologias, elas são apenas instrumentais se estiverem ao serviço da “sabedoria da experiência”. Ora um dos grandes problemas é que muitos dos que deveriam ter essa “sabedoria da experiência” mais não têm que as mesmas experiências muitas vezes repetidas. Nesse caso compreende-se que queiram manter tudo como está e se refugiem em processos que já tiveram a sua época. Até porque a ignorância prepotente de alguns iluminados os continua a manter vivos através da máquina legislativa e das pesadas e complexas estruturas que dela resultam...

Com as potencialidades que existem não nos podemos desculpar com a legislação. Aliás, a este propósito, lembro-me sempre do meu sogro quando recorda que já no Direito Romano se dizia “non omne quod licet honestum est” (nem tudo o que é lícito é honesto).

Será que estamos a ser honestos com esta geração de crianças e jovens? A maioria dos indicadores diz-nos que não…

Hélder Lopes, Professor da Universidade da Madeira