Há anos atrás escrevi uma peça sobre arguidos e corrupção. Dizia, então, que não há corruptos. Que os portugueses são muito dados a ser arguidos mas ser condenado por corrupção não é connosco. Recordo-me, aliás, que na altura fiz uma pergunta aos leitores, depois de afirmar que não há corruptos: os leitores conhecem algum? Como poderiam conhecer se eu acabava de afirmar que não existiam. Hoje, passados uns anos, pouco mudo de opinião em relação aos corruptos. Mas tenho uma nova certeza: não há responsáveis. Culpados, quero eu dizer. Responsáveis pelo bem que se faz ou pelo mal que acontece. Aliás, a história é sempre assim. Quando algo acaba bem aparece uma catrefada de fazedores e acaba não se sabendo quem foi o responsável, o culpado por tudo ter corrido tão bem. Quando a coisa dá para o torto, está quieto … alguém assume? Conhece o leitor algum culpado pela má “venda” – ou oferta – do Banif ao Santander, pela má resolução do mesmo banco e de outros que tiveram o mesmo fim? Não há sempre uma justificação mais ou menos esfarrapada numa outra qualquer comissão de inquérito que leva a pensar que “eles”, os responsáveis, os “culpados” não existem. Quase só falta dizerem que a culpa é dos estúpidos dos depositantes … Recentemente as arguições ou detenções por corrupção, as insinuações de má gestão, incompetente ou danosa, voltaram a fazer manchetes, sejam nelas visados responsáveis políticos, reguladores ou meros gestores de empresas privadas voltaram a fazer manchetes. Recentemente, um administrador não executivo de um banco que foi alvo de uma resolução foi nomeado presidente do “banco mau” que resultou do banco “resolvido”. Isto é, teve um prémio, Sim, um administrador dos que terá falhado! Há culpados? Não. Os jornais escrevem dois dias sobre o assunto e depois, bem, depois, tudo se esquece, até porque aparece mais um escândalo. Outro interessante exemplo é o da discussão jornalística sobre este orçamento aprovado em Bruxelas. Dos diários aos semanários, passando pelos meios online, indo até às televisões e rádios encontramos dezenas de teorias que apenas fazem com que nos confundamos cada vez mais. Não falo de textos escritos por economistas, porque desses sabemos que, dependendo da escola que adoptam, nunca podemos esperar opiniões coincidentes. Aliás, a economia é um pouco como o direito: “uma lei quer dizer uma coisa e, às vezes, o seu contrário”. Diz um jornal que por um lado se apela à natalidade mas, por outro, quem tem mais filhos vai pagar mais impostos. Diz outro que o orçamento de 2016 bate recordes e que nunca se cobraram tantos impostos em Portugal. Um terceiro, que colossal aumento de impostos sai do IRS para os condutores, outro ainda, que nem sempre a queda da sobretaxa compensa, um quinto, que “ a partir de mil euros, quem tem filhos paga mais”, e um último, que o orçamento traz um aumento histórico com as pensões dos políticos. E, espantem-se, é tudo verdade. E o contrário também. Por isso é que eu insisto na afirmação de que Portugal é um país único no mundo. Não há outro que tenha mais arguidos por corrupção que o nosso e, em simultâneo, é o país com menos condenados pelo mesmo crime. Não há outro em que haja tanta comissão de inquérito para colocar em causa decisões que afectam milhares de cidadãos mas não há uma decisão que tenha resultados práticos. Quem se trama é o mexilhão: “tem razão, mas vai preso”, isto é, vai ficando sem nada. Os restantes, todos eles, dizem a verdade e são inocentes e acabam com pensões certamente muito merecidas.
António Cunha Vaz