Localizada entre gigantes dos cruzeiros, como são as Caraíbas, o Mediterrâneo e a Europa do Norte, a Madeira está numa posição privilegiada para maximizar o valor do mar através do turismo. Estes três principais mercados representam cerca de 70% da quota global desta indústria, ou seja, algo como 14 milhões de passageiros e 25 mil milhões de dólares de receita anual circulam nestas regiões marítimas. Esta centralidade da Madeira, associada ao seu agradável clima e à vocação relacional e de bem receber das suas gentes, para além de ter transformado a indústria dos cruzeiros numa atividade relevante para o arquipélago, coloca a Madeira numa excelente posição para acompanhar a tendência de crescimento futura desta atividade.
A nível global, nos últimos anos, o número de passageiros tem crescido consistentemente a um ritmo médio de cerca de 5% ao ano. É interessante que, mesmo num cenário de crise económica do mundo ocidental, com epicentro nos anos de 2008 e 2009, esta indústria continuou a crescer, passando ao lado da turbulência existente, o que nos leva a acreditar que se trata de uma indústria que ainda não atingiu a maturidade, ou seja, com espaço para crescimento. Se tivermos também em consideração a elevada representatividade de passageiros dos Estados Unidos da América (mais de 50%) é fácil de perceber que, à medida que turistas de outros países ganham interesse por este produto turístico, a procura mundial tende a crescer. Estes números impressionantes que a publicação “Circum-navegação: LEME – Barómetro PwC da Economia do Mar (Mundo)” relata, acrescentam mais luz e esclarecimento ao debate sobre o crescimento azul e a economia do mar.
Claramente existem razões para ter esperança de que é possível ter crescimento económico, no futuro, através do mar.
A indústria dos cruzeiros é apenas um dos exemplos do estado da arte das diversas atividades marítimas a nível global contantes do relatório “LEME Mundo”, no entanto, este relatório vai além da compilação de informação estatística relevante, uma vez que constrói o primeiro “Mapa da Economia do Mar” onde se podem visualizar os diferentes tipos de uso e diferentes estratégias que os vários países e continentes estão a adotar em relação ao mar e traça alguns pilares básicos de uma estratégia eficaz para o crescimento azul (governance, pessoas bem preparadas e tecnologia adequada), recomendando vivamente que o crescimento e desenvolvimento económico através do mar deverão ser efetuados de forma sustentável e começando pelo reforço dos alicerces das atividades do mar e não pelo telhado.
Um exemplo de um dos alicerces de qualquer atividade do mar é a Salvaguarda da Vida Humana no Mar. Por vezes ouvimos dizer “é importante duplicar o peso da economia do mar na economia nacional”, afirmação com a qual todos os que acreditam na economia azul concordam, no entanto, é necessário ter em linha de conta que, por exemplo, duplicar os turistas que visitam a Madeira através de cruzeiros, significa passar de 500 mil, para um milhão, a nível nacional significa passar de mais de um milhão para mais de 2 milhões e assim sucessivamente… O sistema de Salvaguarda da Vida Humana no Mar atual está preparado para acolher esta avalanche adicional de pessoas que irão interagir com o mar? Talvez seja melhor debater este assunto…
Miguel Marques