Sei que o tema que escolhi para opinar é muito polémico e de difícil abordagem. Choca com a educação, sobretudo religiosa, que recebemos desde que nascemos. Costumo dizer muitas vezes que já nascemos com uma condenação anunciada, que é a morte certa. Ninguém vai ficar cá. É assim que as sociedades se renovam com novas gerações. Mas se a ciência tem avançado em tantos sentidos, porque não aproveitar e aliviar o período de sofrimento da partida? Porque se continua a ver o sofrimento antes da morte como necessário para a chamada purificação do além, que ninguém sabe onde fica? Porque deixamos os seres humanos passarem pelo sofrimento, pelas dores, pela degradação física, e muitas vezes mental, se sabemos que eles estão à beira da morte? Porque salvamos pessoas, que sabemos que vão morrer em breve, deixando-as a sofrer terrivelmente até ao último suspiro? A coisa mais difícil, para os seres humanos que acompanham estes doentes, é vê-los passarem por todas estas fases e não poder fazer nada. Acompanhei três familiares nos últimos anos, que por razões diferentes, sofreram e morreram à nossa frente. A última destas pessoas sempre disse que, se um dia adoecesse com uma doença grave, queria que lhe dessem uma injeção e a deixassem morrer sem sofrer. Quando fomos acompanhando todo o seu processo de degradação física só nos lembrávamos destas palavras, mas se as repetíssemos aos técnicos de saúde, que a acompanhavam, ainda achariam que os desumanos eramos nós. Também não o fizemos, porque sabemos que eles estão proibidos, pelo juramento que fazem, de praticar a eutanásia. E Também sei que a sua formação não lhes permite nem discutir com os familiares tal hipótese. A questão que hoje está colocada é se estas situações do sofrimento podem ou não ser aliviadas? Se numa situação irreversível podemos ou não evitar que o ser humano tenha que passar pelo pior antes de dar o último suspiro. Se a pessoa doente tiver todas as suas faculdades mentais e tiver consciência da sua situação pode ou não decidir sobre a hora da sua partida. Desde já declaro que se um dia essa situação me acontecer eu gostaria de ter esse poder de decidir. Tenho visto tanto sofrimento que gostaria de nunca ter de passar por tal situação. É egoísmo? Porquê? Se eu é que decido sobre a forma de viver porque não posso decidir sobre a forma de morrer? Se eu toda a vida luto por direitos para vivermos melhor porque não posso lutar sobre o direito de morrer melhor? Não gosto de ver o sofrimento. Não gosto de ver a degradação do ser humano. Não gosto de ver a fragilidade da vida no seu pior. Não gosto de ver a inteira dependência de outros, cujo trabalho é nos tratarem como uma tarefa a cumprir. Gostaria que a partida pudesse ser mais digna até para que as recordações fossem menos dolorosas. Todo o ser humano nasce igual em direitos, também devia morrer com direitos iguais. Por isso defendo a morte assistida e apoio a petição que está lançada, para que em Portugal possamos partir com dignidade.

Guida Vieira