Aideologia é uma chatice. É uma chatice porque obriga os políticos a darem a cara pelas ideias que defendem, e, quando estão no governo, a colocá-las em prática. Apesar de incómoda, a ideologia é importante, pois permite aos eleitores alguma previsibilidade nas suas escolhas. Ninguém espera que o Partido Comunista proponha a privatização de uma empresa pública, ou que o CDS dê o seu apoio à morte assistida. Por isso, a política económica e fiscal do Governo da República não será surpresa para os 10% que votaram no Bloco de Esquerda, nas últimas legislativas. É o caso do imposto sobre grandes patrimónios imobiliários, anunciado por Mariana Mortágua.

O problema não está no imposto, está no seu verdadeiro objectivo. É justo que os que têm mais, contribuam mais do que aqueles que têm menos, aliás, é isso que diz a nossa Constituição. O problema é que este imposto, como a própria deputada do Bloco reconheceu, representará uma receita adicional tão baixa, que pouco contribuirá para a redistribuição da riqueza. Ora, se não contribui para redistribuir riqueza, apenas serve para a censurar. “Temos de perder a vergonha e ir buscar a quem está a acumular dinheiro”, anunciou Mariana Mortágua. Resta saber, quando é que a riqueza deixa de ser poupança e passa a ser acumulação. Hoje é 1M€, amanhã 500.000€, depois 250.000€, decrescendo ao ritmo da moralidade fiscal decretada pelo Bloco de Esquerda. Precisamente a mesma moralidade, que aceita dar acesso automático das Finanças a todas as contas bancárias a partir de 50.000€. Sem qualquer suspeita e sem justificação. Não é combate à fraude, é a legalização da devassa da vida privada. Apenas porque, de acordo com Mariana Mortágua, “quem não deve, não teme!”. Não foi, mas podia ter sido o lema da PIDE. Para o Bloco de Esquerda, existem pobres porque existem ricos. Mas isso não é novo. Em 1975, numa conversa entre Otelo Saraiva de Carvalho e o primeiro-ministro sueco, o social-democrata Olof Palme, Otelo terá dito com orgulho: “Em Portugal, já acabámos com os ricos.” Palme respondeu, com calma: “Nós, na Suécia, preferimos acabar com os pobres.”.

João Paulo Marques