Os candidatos presidenciais estarão estafados, mas os partidos estão certamente relaxados. Os partidos, mas apenas os do chamado arco do poder e os que dele estão mais distantes, aqueles que quase não contam para o xadrez político nacional. Uns e outros deixaram passar completamente ao lado a campanha para as eleições deste domingo. Este alheamento partidário resulta de uma interpretação do papel partidário nas presidenciais que tem tanto de minimalista como de oportunista. Minimalista no sentido em que as velhas máquinas partidárias viram aqui uma oportunidade de tentar passar entre a chuva, sem grande engajamento político. Oportunista, porque foi apresentado como se o distanciamento fosse uma forma de despartidarização da eleição do Presidente da República. Nada mais falso. Num caso e no outro, esta zona cinzenta, esta opacidade disfarçada de abertura à participação cívica, foi apenas uma forma que PS, PSD e CDS encontraram para não se queimar numa eleição em que as máquinas partidárias têm pouco a ganhar. Desde logo porque há apenas um lugar para distribuir… O resultado desta estratégia está à vista: uma campanha eleitoral onde quase não se discutiu política, onde os partidos se resumiram ao PCP e ao BE e onde Marcelo fez o que quis e quando quis. Para o passeio do comentador que já fala e actua como presidente, terá contribuído, mais uma vez, a divisão da esquerda que se multiplicou em candidatos. Mas ajudou sobretudo a visão simplista e quase irresponsável do PS. Aquela estratégia sustentada numa prática que ‘nem é carne, nem é peixe’, aquela opção de que tanto dá Maria de Belém como Sampaio da Nóvoa, abriu portas a uma mal dissimulada luta fracticida que se confunde com uma longa passadeira vermelha estendida a Marcelo Rebelo de Sousa. Que agradece, claro. Sobretudo se a eleição ficar resolvida este domingo. Se assim for, para este passeio contribuíram também o PSD e o CDS. A falta de entusiasmo de alguns dirigentes e o apoio forçado de outros, apenas serviu para deixar o candidato mais à-vontade e dar maior consistência às vezes em que repetiu ser independente. Como se um ex-líder partidário pudesse ser independente só porque o diz e repete. A verdade é que seja qual for o resultado das eleições de domingo, os principais partidos só se podem queixar de si próprios pelo vazio político que criaram e que transformou a campanha numa ausência de ideias, numa espécie de programa da tarde das televisões generalistas. Desvalorizaram um pormenor importante: em matéria de televisão, de entretenimento, do comentário e da pequena intriga, Marcelo dá cartas. E as cartas dão audiência. E a audiência dá votos. Se ficar tudo resolvido à primeira volta, é mais do que certo que segunda-feira temos dirigentes partidários a chorar sobre o eleitorado derramado por vários candidatos. Se for tudo para uma segunda volta, pode ser tarde para endireitar agora o que nasceu torto. Seja qual for o resultado, qualquer erro só pode ser reparado em 2021. Até lá, não se queixem. Quanto aos eleitores, permito-me uma recomendação: votem. Seja em quem for.