Reflecti muito sobre o que escrever esta semana. Já tinha o essencial no papel quando recebo a notícia que Ivo Vieira já não é mais treinador do Marítimo. Porém, antes de entrar já no assunto do momento, há outro que necessito falar e, de alguma forma, faz perceber como aqui se chegou. Ora bem, sobre os dérbis é preciso perceber uma coisa: não importa como a equipa está; não importa quem tem mais ou melhores jogadores; nem importa sequer a classificação naquele momento; um dérbi na Madeira, um jogo que opõe o Marítimo a outro seu rival regional, é para ganhar! Ponto. Os adeptos não admitem outra coisa que não seja isto. Nem sequer é relevante se o árbitro esteve bem ou mal (e esteve pessimamente mal). O que importa é que o Marítimo vença! Ponto final! E enquanto a pessoa que se senta no banco do Marítimo, seja ele madeirense, madeirense “de fora” ou estrangeiro, não perceber o que isto envolve e a importância que estes jogos têm para os adeptos, essa pessoa terá sempre os seus dias contados. Será isto racional? Não, é evidente que não o é. Mas raramente o futebol é algo racional quando mexe com os sentimentos dos adeptos. Estes jogos valem mais que os três pontos em disputa. Valem honra e respeito. Valem poder andar de peito inchado e chingar os nossos amigos rivais ou, por outro lado, andar com a cabeça entre as pernas. E assim chegamos a Ivo Vieira. Independentemente do seu percurso, com momentos muito bons, foram as três derrotas nos dérbis já disputados que selaram o seu destino enquanto treinador do Marítimo. Será justo? Mas desde quando é o futebol justo ou grato? Que fique de aviso à navegação. Se há jogo que vale uma carreira no Marítimo, esse jogo é um dérbi.

Mas, afastando a tal irracionalidade, que não se fique com a ideia que apenas esta partida tramou Ivo Vieira. Na semana passada fiz um balanço ao que foi a primeira volta do Marítimo, onde foi possível verificar que não existe grande diferença face ao que conseguiu produzir a equipa então liderada por Leonel Pontes na temporada transacta (com excepção, justa dizer, a uma melhoria no futebol praticado). Então acabei com o desejo que Ivo Vieira fosse capaz de resolver o problema do equilíbrio da equipa, que fosse capaz de doar aos seus jogadores processos defensivos viáveis, que pudesse tornar a equipa mais sólida e regular. Porém, logo ao primeiro jogo da segunda volta, no dérbi da Madeira entre o Marítimo e o União, o que se viu foi mais do mesmo, mas para pior. Não julgue o leitor que isto que digo vem no calor da derrota. Há muito que venho apontando (inclusive estatisticamente) o mal da nossa equipa. Só não vê quem não quer ver ou quem quer assobiar para o lado. Tudo o que hoje se vive na equipa, que culmina na saída do seu treinador, é apenas a inevitabilidade do tudo o que se passou até agora, uma simples causa e efeito. Vamos aos números: 3 derrotas nos dérbis. 9 derrotas no campeonato. 36 golos sofridos. 14 expulsões e 65 cartões amarelos que garantem o título de equipa mais indisciplinada da Liga. A contínua aposta em jogadores que já provaram que não podem vestir a camisola verde-rubra. O objectivo europeu já é quase uma miragem. Pior, são menos 2 pontos que na época passada com Leonel Pontes ao comando (e todos sabemos como isso acabou). Eliminados da taça frente a um Amarante dos escalões inferiores. Safou-se, para já, a Taça da Liga. Facilmente poderíamos cair na caricatura e dizer que tudo isto deve-se à “pouca qualidade” dos seus intervenientes. Apesar de reconhecer menos valia a alguns jogadores, não tenho dúvidas que temos matéria para muito mais do que aquilo que a equipa produziu (como o demonstram alguns resultados alcançados), e que hoje temos mais valias que em alguns momentos da era de Pedro Martins. Carlos Pereira disse que o destino do treinador dependia dos jogadores. No domingo tivemos a resposta definitiva. Foi mesmo só desligar a máquina.

Luís Miguel Rosa, Advogado