Terminado o ano de 2015, esperemos todos que o recém-chegado seja melhor, mas… as notícias que vieram a lume neste final de ano de 2015 e princípio do ano em curso, não foram nada agradáveis para os cidadãos portugueses. Depois duma austeridade infrutífera para reduzir o déficit, a verdade é que ele tem crescido. E de responsáveis nada se disse.
Corria o ano de 1426, quando o Infante D. Pedro, filho de D. João I e de D. Leonor de Lencastre, “emigrado” em Bruges, escreveu uma carta a El-Rei D. Duarte, seu irmão, alertando para aspectos que ele considerou fundamentais para a prosperidade do reino. Aqui reproduzo parte dessa carta.
«O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo. Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas. É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência. É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas; uma viagem de inspeção, atenta a estes aspectos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos. A justiça só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixam a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça. Quanto à temperança, devemos confiar sobretudo na ação do clero, mas ele [o Infante D. Pedro] tem a impressão de que a situação em Portugal é melhor do que a dos países estrangeiros que visitou. Enfim, um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte, sem outra forma de ofício.» [1]
Enfim, D. Pedro, há 590 anos, sem ter de consultar os horóscopos e as bolas de cristal, nem o Fundo Monetário Internacional, nem o Banco Central Europeu, nem a Comissão Europeia, já tinha traçado o diagnóstico do país que éramos…
Hoje, numa retrospectiva, julgo que só nos resta concluir que este homem era de facto um estadista e tinha detectado que, no ADN do povo português há um fado que determinou que uma das suas moléculas contenha as 4 instruções genéticas que sempre coordenaram o desenvolvimento e funcionamento da raça portuguesa responsáveis pela transmissão das características hereditárias de cada um de nós.
1) Emigrar nos momentos difíceis; 2) Ter remunerações baixas e impostos elevados; 3) Ter uma justiça lenta, e, 4) Um Reino (Estado) esbanjador. Questiono-me o que é diferente hoje, em Portugal? Não tivemos, bem recentemente, um primeiro-ministro que recomendou a emigração à juventude? Isto é, exportar, a custo zero, a inteligência, o conhecimento, a força e o trabalho? Na Europa, não continuamos a ter dos mais baixos salários e das maiores taxas de impostos? A Justiça alguma vez foi lesta? Estado esbanjador… a começar pelo nosso presidente da república que nos fica mais caro que a família real espanhola!!! Proponho o Infante D. Pedro para Prémio Nobel da Economia! [1] Resumo feito por Robert Ricard e constante do seu estudo «L’Infant D. Pedro de Portugal et “O Livro da Virtuosa Bemfeitoria”», in Bulletin des Études Portugaises, do Institut Français au Portugal, Nova série, tomo XVII, 1953, pp. 10-11).
Manuel Vieira