Tem havido muitos navios no porto do Funchal.

Não vou dizer que sou taxativamente contra a presença de navios de cruzeiro no porto, mas também não os posso defender como a panaceia contra todos os males.

Em termos de proveitos, não tenho visto estudos recentes, mas há uns anos o cliente de cruzeiros era do que menos deixava na Madeira. Vendo os navios que mais frequentemente nos visitam, duvido que isto tenha mudado. Aliás, basta passear-se pelo Funchal e observar os nossos visitantes: entram no mercado e observam de tudo, mas raramente saem com um saco. Vão ver os bordados, mas não os compram. Vão até à cidade, mas não de táxi: usam o shuttle ou vão a pé. Partilham um café numa esplanada, mas vão almoçar no navio.

Será que é mesmo isto que queremos? Será que é mesmo disto que precisamos?

Também não estou convencido que o ferry seja uma mais valia para o turismo. O ferry é importante para a população local, porque permite uma saída e entrada fácil na ilha. Será uma mais valia para o turismo na medida em que permitirá obter produtos frescos e perecíveis de maior qualidade a um preço mais baixo, o que permite simultaneamente melhorar a qualidade da oferta (nomeadamente em termos de restauração) e aumentar as margens.

Vai-nos trazer turismo? Não acredito que seja um mercado relevante, nem em termos de quantidade nem em termos de valor. Mas acho que é uma aspiração legítima e relevante enquanto cidadãos, na medida em que deve ser entendida como uma medida fundamental na garantia do preceito da continuidade territorial.

Mas acho que deve ser visto menos do que uma extensão da linha das Canárias – das quais desde sempre nos vimos a tentar desligar em termos de imagem – e mais como um factor de integração nacional, ligando Açores e Madeira a Lisboa, o que me parece possível com um navio em rotações semanais. Mas também aqui faltam estudos e informação. [email protected]

Roberto Loja