Quem da minha geração não conheceu o Hotel Savoy e a sua «boîte» panorâmica, Galáxia, no piso de topo? O Hotel, apesar da sua relativa volumetria já nessa época (em resultado de ampliações sucessivas), tinha um perfil arquitectónico que se integrava bem no espaço circundante fazendo dele, a par do Reid`s, um ícone, um hotel de referência na Madeira para uma clientela exigente e elitista.
Não percebi porque foi demolido, se por razões de segurança (cablagem de cobre, sistema de frio, estrutura ameaçada, etc?) ou económicas (espaços perdidos, circulações disfuncionais, necessidade de expansão, etc»?) ou ainda se foi a ganância da perspectiva imobiliária (de lucro fácil quando o mercado está em alta, mas de rentabilidade duvidosa numa conjuntura recessiva como a presente …) que motivou os seus promotores.
Mas, o que não se entende num destino turístico que se pretende de qualidade, é que se viabilize um equipamento que é um autêntico «monstro arquitectónico» projectado com 16 pisos (antes seriam 9) e com a volumetria que a maqueta publicada neste Diário deixou antever.
Será que o seu licenciamento obedeceu aos trâmites apertados que um projecto desta envergadura impõe, em particular o seu impacto ambiental? Se sim, foi uma decisão tomada com base numa perspectiva muito discutível, se não, o caso é grave. Porquê?
Porque, há mercados que interessam á Madeira que reagem muito mal a estas veleidades, como a Alemanha ou os países nórdicos, a par do segmento que a Madeira ambiciona captar (média-alta). Cada vez mais o cliente diferenciado é sensível ao ordenamento adequado do território e à sustentabilidade ambiental do património construído.
Numa análise meramente comparativa será que o projecto em questão tem alguma coisa a ver com o equipamento existente bem integrado no respectivo contexto, como são os projectos de um Porto Bay, de uma Quinta da Bela Vista (e o conjunto das Quintas da Madeira como oferta diferenciadora) de um Pestana Porto Santo ou até de um Hotel Pestana Casino, um pouco ousado, mas que se aceita por ser inovador e de traço fino?
Lembro-me, quando a seu tempo trabalhei na Madeira, que os operadores alemães com quem negociava usavam o argumento da «construção excessiva» (próprio de um destino de massas) que começava a ganhar terreno na Madeira, mais concretamente no Funchal, dando o exemplo da Ajuda como uma tendência a evitar para a clientela que operavam e, com isso, reagiam a qualquer aumento de preço que era mais do que justificável na conjuntura do mercado de então e importante para a sustentabilidade do negócio hoteleiro à época.
O leitor imagina um edifício como o da Caixa Geral de Depósitos (sede) implantado no Funchal? Não faria naturalmente sentido em termos estéticos como não faz o projecto em apreço. Então, como se chegou a este ponto, quem não agiu em conformidade com as exigências regulamentares do lugar e do próprio negócio?
Porque este projecto, megalómano à escala do Funchal, pode ser um tiro no pé para quem o promove já que «quanto maior é a nau, maior é a tormenta» e a nova capacidade instalada pode desequilibrar o mercado e fazer baixar o preço-médio (e o Revpar) o que não é de todo conveniente, nomeadamente para o investimento em causa.
Mas, convenhamos, o que mais impressiona neste empreendimento é a agressão ambiental que o projecto suscita num contexto de pequenas e médias unidades arquitectónicas que fornecem um certo equilíbrio à paisagem urbana do Funchal e de uma certa maneira suportam uma imagem do destino turístico que é gerador da simpatia do viajante mais atento aos valores ambientais e ecológicos.
O que não é o caso do Mónaco, por exemplo, onde é a construção em altura que impera e confere-lhe, apesar de tudo, uma certa continuidade paisagística quebrada apenas pelo edifício do Casino, um ex-libris do Principado que não choca, antes pelo contrário.
A situação do Funchal é diferente porque requer uma abordagem arquitectónica mais «contida» a partir da sua visualização de terra e do mar, o que não ser o caso deste projecto. E, por isso, quando se ouve uma responsável da unidade dizer que «pretendemos ver no novo hotel algum do charme e da tradição Savoy através da recriação de algumas áreas e com a conservação do mobiliário das zonas públicas», soa, salvo melhor opinião, a falso.
O que leva a fazer sentido colocar a questão, será que ainda estamos a tempo de reverter a situação para bem do turismo regional e, no meu entendimento, para o próprio promotor?
Nuno Jardim Fernandes