Não foi propriamente um encontro muito pacífico. Imagino que ela partilhe dos mesmos sentimentos em relação a isso. Foi num dia escuro, com vento forte de sudoeste e mar a condizer. Com tanto mar disponível, ela tinha mesmo de aparecer à minha frente quando ia já no limite. Só consegui ver uns olhos esbugalhados, numa pequenina cabeça mesmo à tona da água, na cava de uma onda. Não houve tempo nem para fechar os olhos. Quando a quilha da prancha bateu na carapaça da tartaruga, a velocidade passou de 27 nós para zero instantaneamente. Engatado que ia no trapézio, não consegui me soltar, fiz uma catapulta e aterrei em cima da vela.

Quando recuperei, contei os ossos para verificar se estavam todos lá e no sítio certo. Felizmente, só uma nódoa negra no braço. Da tartaruga, nem rasto. Confesso que fiquei ao mesmo tempo triste, pois imagino que a pancada não terá sido dócil no animal, mas também melindrado. Não se dignou ver como eu tinha ficado...

No dia seguinte, voltei ao mar e para meu espanto, muito perto do local onde tinha ocorrido aquele encontro imediato, lá estava de novo uma tartaruga. Não consigo precisar se a mesma. Na minha cabeça, imaginei que sim, que ela teria ficado ali à minha espera para, finalmente, ver se estaria tudo bem comigo.

Ficamos assim, a olhar um para o outro, parados no meio do mar. Foi então que me apercebi.

À volta do seu pescoço, havia um plástico, já amarelado pelo tempo. Mas quando me tentei aproximar, nadou para o fundo e desapareceu. Ali fiquei a tecer cenários. Morreria asfixiada? Seria daqueles animais que se vai desenvolvendo grotescamente à volta destas armadilhas mortais, que cada vez mais, pairam silenciosamente nos oceanos?

Todos os dias encontro plásticos a flutuar no mar. Sacos de supermercado são a maioria. Mas embalagens também. Ou redes de pesca. E encontro esta sopa de plástico aqui na Madeira ou em qualquer parte do mundo onde já tenha velejado, com maiores ou menores concentrações.

Esta sopa faz parte já da nossa ementa, sem o sabermos. Espalhou-se pelos mares do planeta, entrou na cadeia alimentar das espécies marinhas e acaba na nossa mesa.

Nós por cá, limitamo-nos a taxar os sacos de plástico. Outros países, proibiram-nos!

João Rodrigues