Por que motivo ficamos com a sensação de que estes atores da política nos entram pela casa adentro o ano todo com as balelas de sempre? E por que não nos dizem nada de novo, de concreto? E por que já não nos conseguem convencer do quer que seja? Será apenas porque a mensagem, que nos atiram ad naseam, está gasta como as pedras da calçada? Todos já interiorizamos que temos de dar um grande desconto aos senhores políticos, particularmente aos que se vão revezando na cadeira do poder. Curiosamente os que maior cuidado deveriam ter. É vê-los no palco das campanhas eleitorais, num esforço sobre-humano de encarnarem o cidadão comum, “compreendendo” os seus problemas e anseios, sujeitando-se aos apertos da rua e às bocas, aos beijos e aos abraços de gente voluntariosa à procura do seu “minuto de fama”, junto de uma qualquer câmara de televisão. Calcorreiam o país de uma ponta à outra numa correria desenfreada como se não houvesse amanhã. E falam, falam, falam. À caça do voto e, sobretudo, para preencher o espaço nos telejornais e nos diários do dia seguinte. Os grandes levam um séquito devidamente organizado, com a lição estudada, sempre pronto a colocar uma dezena de bandeiras naquele recanto da praça, para colmatar a falta de povo no comício e na péssima imagem que dali iria resultar um plano televisivo. Há que parecer bem na fotografia, passar a ideia que se é bem aceite. Nestes 15 dias joga-se o tudo por tudo. E depois são as “tracking poll” (sondagens diárias) de várias empresas, motivo de alegria e desespero diversos. E o PS que não descola e a coligação PSD/CDS que vai surpreendendo com um nível de aceitação nunca pensado há um par de meses. Os restantes partidos, tirando o PCP e o Bloco de Esquerda, jogam efetivamente num campeonato mais comedido. E o povo fartinho desta trupe que insiste em nos dar “pão e circo”. Em concreto: haverá mais cortes nas pensões? Os que estão hoje no ativo vão receber reforma amanhã? Como vai ser feito o corte de 600 milhões de euros no orçamento da Segurança Social, previsto no Plano de Estabilidade entregue em Bruxelas? Até agora ninguém conseguiu explicar, de forma cabal, como é possível fazer essa poupança (corte). Vão aumentar os impostos? Falam em plafonamento vertical e horizontal, num jogo de palavras que vai ficar nos anais desta campanha, mas não traduzem por miúdos o que nos querem fazer depois do dia 4. Este contínuo jogo de avanços e recuos tresanda a demagogia, a facilidade eleitoral, a mentirinha arquitetada na base do nem sim, nem não, a muita fragilidade, alicerçada num deserto de banalidades. Ninguém se quer comprometer. E isso gera uma enorme falta de confiança do eleitorado nesta gente. De hoje a oito dias, os portugueses vão ser chamados a decidir nas urnas. E ditarão a sua sentença. Votarão na coligação, no governo que ditou a maior subida da carga fiscal e que lhes cortou as prestações sociais? Votarão no PS, o único capaz de chegar ao poder, mas que não tem conseguido passar uma mensagem clara e consistente, apresentando um líder surpreendentemente desfocado? Ou votarão nos que à esquerda lutam contra o voto útil nos socialistas mas que, por si, não chegam efetivamente ao comando? A escolha vai recair, infelizmente, entre dois males. Não caia é na tentação, caro leitor, de contribuir para o aumento de um mal ainda maior: a abstenção. Vote! PS – Bravo. A iniciativa “RFM & Madeira Experience”, em Lisboa, traduziu-se num êxito. Foi uma boa aposta pôr os tradicionais carros de cesto a descer a movimentada rua do Carmo, na capital. É a prova de que a promoção do nosso destino assumiu uma postura dinâmica, não se limitando à participação formal nas feiras da especialidade. Foi e bem ao encontro do grande público, com o melhor que sabemos fazer. Venham mais iniciativas do género.

Roberto Ferreira