Fico, no mínimo, confusa quando ouço algumas pessoas que apoiaram de forma mais ou menos declarada os desvarios orçamentais do governo regional do PSD, sobretudo dos últimos dez anos, e que levaram as contas da região ao descalabro, tornando a vida dos madeirenses mais difícil, venham agora usar o argumento da necessidade da boa gestão dos dinheiros públicos a nível nacional para votar e apelar ao voto na coligação que nos asfixiou durante 4 anos e levaram a um maior empobrecimento dos portugueses.

Que a boa gestão dos recursos do Estado é necessária, isso é verdade inequívoca. A questão não é essa. O que se coloca é se a redistribuição desses recursos é feita de forma equitativa, com o objetivo de dar melhores condições de vida aos portugueses e não apenas com base na racionalidade dos números.

O discurso da contenção orçamental e do sacrifício só serviu para alguns, porque, como se sabe, o número de ricos em Portugal e no mundo não para de crescer.

Retirou-se mais recursos aos trabalhadores, pensionistas, pequenos e médios empresários, mas não para melhorar o Estado Social. Não! Foi para alimentar um sistema que favorece quem já tem mais.

Juntou-se à pobreza geracional e persistente uma nova pobreza gerada pelo desemprego e precariedade, que reduz as oportunidades e as liberdades de escolha. Este quadro de pobreza em Portugal atinge mais de 40% da população e só é mitigado pela intervenção do Estado através das pensões, subsídios e outros abonos. Por outro lado, este quadro vulnerabiliza a economia, que não tem sido capaz, sendo frágil, de estreitar o fosso entre ricos e pobres. Sendo certo que o Estado Social se sustenta na economia, também é certo que se se retira os rendimentos das pessoas, diminui-se o consumo. Por conseguinte, fragiliza-se a economia. É um ciclo difícil de quebrar, mas não impossível.

É aqui que reside a matriz de uma política de esquerda, socialista: a distribuição mais justa e equitativa da riqueza, pensando nas pessoas. Abster-se de participar no próximo ato eleitoral é ser conivente com a lógica seguida nos últimos 4 anos.

Sofia Canha