O Engenheiro está cercado. A Administração chamou-o para comunicar – lhe que a paciente A do Bloco B entrou com um pé partido e depois no Hospital morreu vítima de bactéria «carnívora». Imagino o que o meu colega está a sofrer. Só, com lucidez e sangue frio, dirá para si próprio : Afinal que seres minúsculos são estes? De onde vêm? Como são constituídos? Porque lutam? Como se desenvolvem? Como atacam? Como reagem á agressão? De que depende o seu sucesso?. Agora, perante a ordem, para resolver o problema ,irá chamar os seus colaboradores mais próximos. Vai á procura daqueles predadores entrincheirados algures num lavador de ar condicionado das Unidades de Climatização, ou na cabeça de um chuveiro… Que fazer? São quilómetros de condutas, de tubagens, de dezenas de lavadores de ar, centenas de chuveiros, milhares perlatores nas torneiras…todos possíveis fontes de infecções! O engenheiro guarda chuva sabe que as infecções nosocomiais, que, são adquiridas no hospital, têm origem :endógena, quando provocadas por microrganismos da própria flora do paciente(auto infecção) e exógena -quando o agente biológico procede do ambiente hospitalar ,através do ar, da agua ,dos alimentos, de outros pacientes ou do pessoal da saúde e do material utilizado Centenas de doentes, alguns em elevado grau de debilidade, poderão estar à mercê da temível bactéria… e a solução não é fácil e custa dinheiro. Em conversa informal com um colega meu, responsável pela manutenção da sua Unidade Hospitalar, perguntei-lhe como estava o controlo das infecções, a qualidade do ar, os sistemas de ventilação, a segurança geral dos blocos operatórios, UCIS e as áreas críticas? A resposta do colega foi simples: quem sabe disso é a Comissão de Controle de infecção, a Direcção Clinica e o Conselho de Administração. Veio-me á lembrança o seminário da ATHEP, na Madeira em 2001, sobre a qualidade e segurança nas Unidades de Saúde em que participaram dezenas de enfermeiros da RAM em conjunto com arquitectos, engenheiros e administradores vindos de todo o Portugal Pode o hospital estar certificado, dado que prometeu corrigir as deficiências, pode ter todos os planos de emergência bem elaborados mas metidos na gaveta, a realidade é que o problema da segurança integrada tem de ser praticada. Não vale a pena meter a cabeça na areia. O Hospital deve ser o hotel para onde vamos quando estamos doentes, não pode ser a câmara da morte. A Célia era minha colega ,uma vida inteira a trabalhar nas Construções Hospitalares, entrou no Hospital em Lisboa com o pé partido foi operada e morre de uma bactéria assassina.
Dírio Ramos