Já não suporto ouvir nem ver o primeiro-ministro. Não suporto que faça da mentira permanente o seu modo de vida político. Já tenho a minha idade, uma grande mão-cheia de cabelos brancos e molhos de rugas. Mas com isto tudo não perdi, felizmente, a capacidade de me indignar. Com os factos mas, sobretudo, com a desfaçatez e o desplante com que são apresentados até porque tenho o hábito de, mais que às grandes discussões, dar atenção às pequenas coisas de aparência inocente, às vezes depois ‘justificadas’ como lapsos, mas sempre com uma fortíssima componente ideológica. Já não suporto ouvir nem ver o primeiro-ministro. Não suporto que faça da mentira permanente o seu modo de vida político. O país está pior, nós estamos bem pior, a realidade é o oposto do que ele propagandeia – mas, como se todos fossemos uns idiotas estúpidos, ele finge explicar com um ar falsamente compungido, que tem muita pena mas não há alternativa, a tentar disfarçar o olhar cinzento, distante e frio. E também já não se pode ver nem ouvir o resto do governo, a começar pelo seu vice “As mulheres sabem que têm que organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos”. E este é mesmo o retrocesso civilizacional que ele quer. Mulheres tornadas novas fadas-do-lar, subservientes, que não trabalhem fora de casa, que não partilhem decisões, que não tenham intervenção política, que sejam civicamente amorfas. Ah! e já agora – que nem pensem decidir sobre uma dolorosa, mas necessária, interrupção de gravidez. E depois vem o Crato, a Assunção, o Poiares, a Maria Luís, o Lomba, o Barreto Xavier, o…, o…, o… – numa infindável sucessão de gente que faz da arte de ‘bem nos levar à certa’ o seu mister! Por cá, alguns farão muita força a afirmar que aqui é diferente e que o governo desta Região é um exemplo. Exemplo será, mas não pelas melhores razões. Uma dívida descomunal, taxas de juros exorbitantes, pobreza e desemprego a olhos vistos, o maior abandono escolar do país. Soluções: desconhecidas, para além da ‘imaginativa inovação pedagógica’ de separar os bons dos maus alunos. A Saúde, numa situação verdadeiramente dramática que vai muito para lá da construção do novo hospital – a sucessão de notícias sobre problemas em quase todos os serviços nem nos permitem adivinhar o que realmente se passa. Mas ninguém pode estar descansado. Soluções: nenhuma! O dossier viagens aéreas é absolutamente esclarecedor. Antes de partir para esta legislação, o governo reuniu todos os dados, ouviu os vários agentes, tomou conhecimento das realidades, ponderou tectos máximos, prazos de reembolsos, valores orçamentais? Governo que, entretanto, só pode estar a gozar com a nossa cara “Novo subsídio de mobilidade – Um céu de oportunidades à espera”. Que diabo é isto? Com o grau de dificuldades económicas que varrem as famílias, se isto não é um insulto, o que é? Viajamos todos por gosto assim como, digamos, um jantar em Lisboa, teatro no Porto e no regresso sai um pequeno-almoço na Horta? “Marque cedo… ganhe no preço e no prazo de reembolso”. ‘Esqueceu-se’ o governo de nos lembrar que só certas tarifas é que são elegíveis – basicamente as mais baratas, com restrições. Para as outras, acima dos 400 euros mesmo que em classe económica, pura e simplesmente não há reembolso. Se alguém pensa que na data X talvez precisa de viajar, pode arriscar a tarifa mais barata – o diabo é que como é com muita antecedência, se surge um imprevisto perto da partida, será preciso mudar e pagar – e pagar bem – a alteração. O que fazemos, então: tarifa mais baixa com risco de penalização por alteração – e com reembolso (quanto custará no final das contas)? Ou tarifa mais alta sem restrições, com total disponibilidade de alteração – e sem reembolso (quanto custará logo à partida)? Mas como a grande maioria das pessoas não sabe com grande antecedência se vai viajar, quando precisa de marcar o mais certo é não encontrar essas tarifas elegíveis, correndo assim o risco de não ter qualquer reembolso. Alternativas: zero! Se isto é a ‘Autonomia Sempre’… Estou farta, confesso, de ver tanto ‘sapateiro a tocar rabecão’! Violante Saramago Matos
Já não suporto ouvir nem ver o primeiro-ministro. Não suporto que faça da mentira permanente o seu modo de vida político.
Já tenho a minha idade, uma grande mão-cheia de cabelos brancos e molhos de rugas. Mas com isto tudo não perdi, felizmente, a capacidade de me indignar. Com os factos mas, sobretudo, com a desfaçatez e o desplante com que são apresentados até porque tenho o hábito de, mais que às grandes discussões, dar atenção às pequenas coisas de aparência inocente, às vezes depois ‘justificadas’ como lapsos, mas sempre com uma fortíssima componente ideológica. Já não suporto ouvir nem ver o primeiro-ministro. Não suporto que faça da mentira permanente o seu modo de vida político. O país está pior, nós estamos bem pior, a realidade é o oposto do que ele propagandeia – mas, como se todos fossemos uns idiotas estúpidos, ele finge explicar com um ar falsamente compungido, que tem muita pena mas não há alternativa, a tentar disfarçar o olhar cinzento, distante e frio. E também já não se pode ver nem ouvir o resto do governo, a começar pelo seu vice “As mulheres sabem que têm que organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos”. E este é mesmo o retrocesso civilizacional que ele quer. Mulheres tornadas novas fadas-do-lar, subservientes, que não trabalhem fora de casa, que não partilhem decisões, que não tenham intervenção política, que sejam civicamente amorfas. Ah! e já agora – que nem pensem decidir sobre uma dolorosa, mas necessária, interrupção de gravidez. E depois vem o Crato, a Assunção, o Poiares, a Maria Luís, o Lomba, o Barreto Xavier, o…, o…, o… – numa infindável sucessão de gente que faz da arte de ‘bem nos levar à certa’ o seu mister! Por cá, alguns farão muita força a afirmar que aqui é diferente e que o governo desta Região é um exemplo. Exemplo será, mas não pelas melhores razões. Uma dívida descomunal, taxas de juros exorbitantes, pobreza e desemprego a olhos vistos, o maior abandono escolar do país. Soluções: desconhecidas, para além da ‘imaginativa inovação pedagógica’ de separar os bons dos maus alunos. A Saúde, numa situação verdadeiramente dramática que vai muito para lá da construção do novo hospital – a sucessão de notícias sobre problemas em quase todos os serviços nem nos permitem adivinhar o que realmente se passa. Mas ninguém pode estar descansado. Soluções: nenhuma! O dossier viagens aéreas é absolutamente esclarecedor. Antes de partir para esta legislação, o governo reuniu todos os dados, ouviu os vários agentes, tomou conhecimento das realidades, ponderou tectos máximos, prazos de reembolsos, valores orçamentais? Governo que, entretanto, só pode estar a gozar com a nossa cara “Novo subsídio de mobilidade – Um céu de oportunidades à espera”. Que diabo é isto? Com o grau de dificuldades económicas que varrem as famílias, se isto não é um insulto, o que é? Viajamos todos por gosto assim como, digamos, um jantar em Lisboa, teatro no Porto e no regresso sai um pequeno-almoço na Horta? “Marque cedo… ganhe no preço e no prazo de reembolso”. ‘Esqueceu-se’ o governo de nos lembrar que só certas tarifas é que são elegíveis – basicamente as mais baratas, com restrições. Para as outras, acima dos 400 euros mesmo que em classe económica, pura e simplesmente não há reembolso. Se alguém pensa que na data X talvez precisa de viajar, pode arriscar a tarifa mais barata – o diabo é que como é com muita antecedência, se surge um imprevisto perto da partida, será preciso mudar e pagar – e pagar bem – a alteração. O que fazemos, então: tarifa mais baixa com risco de penalização por alteração – e com reembolso (quanto custará no final das contas)? Ou tarifa mais alta sem restrições, com total disponibilidade de alteração – e sem reembolso (quanto custará logo à partida)? Mas como a grande maioria das pessoas não sabe com grande antecedência se vai viajar, quando precisa de marcar o mais certo é não encontrar essas tarifas elegíveis, correndo assim o risco de não ter qualquer reembolso. Alternativas: zero! Se isto é a ‘Autonomia Sempre’… Estou farta, confesso, de ver tanto ‘sapateiro a tocar rabecão’!
Violante Saramago Matos