É o que somos. Um povo migrante. Nós madeirenses. Nós portugueses. Nós humanos. A espécie humana tem o seu berço em África há cerca de 200 mil anos e desde então foi ocupando todo o tipo de ambientes da Terra: litorais, montanhas, desertos, florestas, glaciares, ilhas, planícies, pântanos, estuários, rios, etc. De África estendeu-se pela Europa e Ásia e daí, através do estreito de Bering, chegou à América do Norte, descendo até à América do Sul. Neste seu ímpeto expansionista, o Homo sapiens constituiu-se em inúmeros povos que hoje, apesar da globalização, ainda se distinguem mais pelos aspetos culturais do que biológicos e, talvez por isso, continuam a revelar baixos níveis de tolerância entre si.

Seja por escassez de recursos no local onde nascemos ou por guerras e perseguições políticas ou religiosas, ninguém está livre de se ver obrigado a deixar a terra natal para conseguir sobreviver. A história da humanidade está repleta de movimentos migratórios, nós próprios, portugueses e em particular madeirenses, temos a migração a correr-nos no sangue. A génese da população madeirense foi a migração. Portugueses do continente, já resultado de uma miscelânea de povos europeus e africanos que se foram misturando ao longo de milhares de anos na Península Ibérica, outros povos do ‘velho continente’, nomeadamente ingleses e italianos atraídos pelas rotas comerciais, e guanches, mouros e subsaarianos forçados como escravos, foram alguns dos migrantes que vieram constituir o que hoje é a população madeirense. Quando o Arquipélago da Madeira deixou de ser capaz de sustentar a sua crescente população passou ele próprio a ser um ponto de partida para muitas partes do mundo: Brasil, Curaçau, Havai, Venezuela, Angola, Moçambique, África do Sul, França, Jersey, Inglaterra, entre outros. Nascemos da migração e vivemos na migração.

Apesar da migração ser a raiz da humanidade, e até mesmo muitos dos seus ramos e folhas, continua a ser motivo de grande desconforto, tanto para quem vai ou vem como para quem recebe. É um fenómeno que despoleta reações de rejeição frequentes e medos, muitas vezes infundados, em relação ao outro, o desconhecido. É certo que num balde cheio de cascalho ainda lá conseguimos colocar alguns litros de água sem entornar uma única gota mas a prudência exige que se tenha noção do espaço disponível. A migração sempre existiu e sempre existirá e é um processo que requer bom senso, sensibilidade e compaixão, mas também controlo, exigência e alerta. E, acima de tudo, perceber que as verdadeiras soluções para os fenómenos de movimentos humanos em massa estão na origem do problema, o próprio ponto de partida das migrações.

Hélder Spínola, Professor universitário