Num momento particular em que nos preparamos para escolher o novo Governo desta Região Autónoma, que se prevê nos possa proporcionar um novo paradigma sobre as políticas e a estratégia económica, social e cultural, e porque durante 42 anos servimos, de forma leal, esta Terra que nos viu nascer e crescer, sentimo-nos no dever de alertar os nossos futuros governantes para algumas das questões das Artes e da Cultura.
Neste mesmo espaço já tivemos oportunidade de partilhar ideias de como a cultura (e as artes) podem e devem ajudar a nossa economia. Como nota prévia gostaria de relembrar que o investimento público nas Artes e na Cultura na Madeira, segundo estudos do INE, ocupa um lugar inferior em quase todas as estatísticas culturais, ficando quase sempre atrás de regiões muito mais pobres como a região Norte, Centro, Alentejo e Açores. Então aqui ficam algumas sugestões, de uma política geradora de emprego e de profissionalização para o sector e que esteja orientada para os resultados.
(1) que os projetos de educação artística em funcionamento em todo o sistema educativo regional tenham continuidade, pois são hoje uma referência aos níveis nacional e internacional e constituem uma grande mais-valia na formação holística das crianças e jovens;
(2) que sejam maximizados os recursos humanos e financeiros, quiçá com a criação de um Instituto das Artes da Madeira, ou Fundação para as Artes, onde pudessem estar integrados os projetos atualmente em ação – reforço que sem necessidade de mais custos isso seria possível –, bem como uma companhia de Bailado, uma de Teatro, e um Coro semiprofissional com Solistas, que permitissem a realização de espetáculos musicais e de ópera de forma permanente, para além dos concertos sinfónicos, proporcionando uma oferta cultural de qualidade para os residentes e os turistas. Acreditamos que, em poucos anos, se bem gerido este Instituto poderia ter uma receita própria muito próxima dos 50% do seu orçamento;
(3) Envolver os agentes culturais numa rede em que pudessem ser ajudados através de um apoio técnico para acesso a fundos comunitários, bem como na divulgação e promoção dos seus eventos, de preferência integrados numa agenda única regional com divulgação, atempada, em todos os mercados emissores de turismo;
(4) Incentivar a criação de cursos superiores em artes do espetáculo na UMa ou numa Escola Superior a criar, aproveitando os novos financiamentos para cursos superiores tecnológicos de um e dois anos, de modo a tornar a cultura num verdadeiro complemento do turismo, com qualidade cosmopolita. A ideia de se poder ter na Madeira uma espécie de Juilliard School de Nova Iorque ou a Berklee College of Music de Boston, eventualmente sob a supervisão de alguns docentes destas escolas -, seria uma oportunidade para jovens, quer da Madeira, quer da Europa, poderem aceder aos cursos em artes do espetáculo numa Ilha com bom clima, com menores custos, muito mais perto do que os EUA e com um cariz mais profissionalizante, que os atuais existentes ao nível nacional, principalmente focados na música erudita;
(5) Criação, numa zona turística, de um espaço para os artistas independentes poderem expor as suas obras e apresentarem as suas performances. Também os luthieres de instrumentos musicais poderem estar a trabalhar e a divulgarem as suas obras. Como princípio, estas ideias poderiam ser implementadas sem um grande aumento de custos para o erário público. Implicariam uma boa reorganização e maximização dos recursos existentes, a constituição de uma rede de parceiros, bem como o acesso a apoios comunitários.
Carlos Gonçalves