Ricardo Miranda E se de repente, sem mais nem menos, o nosso mundo que todos nós consideramos um rochedo, imutável e imperturbável, simplesmente ruísse como o mais frágil baralho de cartas, como aquela casinha feita de palha por aquele “porquinho” que sempre achou estar protegido contra qualquer intempérie. Foi isso que infelizmente me aconteceu, quando um belo dia tive que dar entrada nas urgências para uma operação (que por teimosia minha fui adiando por pavor a hospitais), que tem sido um verdadeiro calvário. As dores, náuseas, desespero, por vezes são de uma dimensão sobre-humana, mas só podemos aceitá-las de braços abertos e fazer das fraquezas as nossas maiores forças de forma a podermos derrotar a doença e não nos deixarmos ser derrotados por ela.
Sem qualquer sombra de dúvida que esta situação vai deixar uma marca enorme no meu percurso de vida, pois como vos disse a mais básica coisa como tomar um copo de água, conseguir ter autonomia própria, dormir descansado, poder ir tomar um copo com os amigos para desanuviar, simplesmente falar, sorrir, enfim, passam todas a ser conquistas maravilhosas ao nível de um feito até há bem pouco tempo considerado banal e que neste momento torna-se imperial.
É impressionante como as nossas vergonhas, receios, medos, como por magia desaparecem quando a vida assim o impõe. Mas a verdadeira razão deste meu desabafo vai para agradecer a todos os que têm tornado os meus últimos dias menos maus, a todo o corpo clínico que me operou (2 vezes) liderado pela Dra.Lidia, à Dra. Filomena que tem sido incansável, ao Dr.Aris, à Dra.Susana, ao Dr.Bicas, à Dra.Sara, à maravilhosa equipa de trabalho do 1 andar, desde o Enf. Celestino que foi a minha salvação nos primeiros dias, a enfermeira Micaela, Sónia, Zé, ao Enf. Quirino que neste momento é das pessoas que com mais facilidade coloco a minha saúde nas mãos. A todos os auxiliares e restantes enfermeiros que têm sido profissionais de excelência e têm conseguido compensar o que falta fisicamente no hospital com uma entrega e dedicação assinalável.
Normalmente não gosto de individualizar pois corro o serio risco de deixar alguém de fora, mas digo-vos que todos vocês têm um lugar especial no meu coração a partir de hoje. Gostaria de agradecer a todos os meus amigos e família que incansavelmente tem tentado desejar-me as melhoras, muitos deles vindo visitar-me sem que eu possa até olhar para eles, sei que estão todos comigo e acreditem que isso tem uma importância enorme para mim, mas prometo que assim que me sinta melhor responderei a todos vocês. À minha mãe e ao meu pai que lhes devo ter dado um susto de morte, as minhas desculpas. E por fim mas sem dúvida o meu agradecimento mais importante, agradeço a Deus por ter colocado um anjo na minha vida, que tem sido o meu apoio, a minha razão de lutar e que não consigo encontrar palavras para explicar a importância que tem tido nesta pequena partida que a mãe vida me pregou. A ti meu amor, meu anjo Fátima, faço-te uma vénia e agradeço-te com uma lágrima de esperança que daqui a bem pouco tempo seja novamente o teu Ricardo. A todos os que “acidentalmente” lerem esta carta agradeçam a Deus todos os dias que este vos proporcionar, e sejam felizes, pois num abrir e fechar de olhos o que é um dado adquirido hoje amanhã pode não o ser...