Estamos a ser governados há largos anos por cegos bafejados por uma visão milagrosa direcionada cada vez mais para os números e cada vez menos para as pessoas. Fomos submetidos a duríssimas medidas de austeridade, sem olhar a quem e sem haver um cuidado que se exige de um Estado de Direito na proteção dos mais desfavorecidos. A pobreza e a exclusão social que atingem as faixas etárias mais avançadas da nossa população são um problema que tem vindo a crescer exponencialmente, e para o qual se exigem medidas urgentes para que o seu impacto seja minimizado. Muito já foi feito neste sentido. E devo aqui destacar o papel das Associações regionais e IPSS. O papel que todos (muitos em voluntariado) desempenham ao serviço da nossa sociedade, levando às pessoas mais idosas o conforto de uma refeição quente e o apoio de que precisam quando o mundo parece ter esquecido que existem, faz toda a diferença para cada um deles. A esse propósito, assisti atentamente ao debate promovido pela RTP-Madeira sobre a Pobreza e Exclusão Social, e devo dizer que apesar de concordar com muito do que ali foi dito, tenho de manifestar a minha indignação perante a posição do Sr. Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Funchal, cuja opinião revelou um egocentrismo citadino a que nos habituámos a desvalorizar, mas que se traduz numa opinião de menoridade para com os concelhos rurais da Madeira. Não concordo que se diga que a construção de Lares de Idosos na Costa Norte não era uma medida prioritária pois, segundo o próprio, nos meios rurais os idosos contam muito com a ajuda dos vizinhos. Concordo que existe maior proximidade entre vizinhos no campo, mas não existem meios nem capacidade por parte dos vizinhos para dar respostas, p.ex., a pessoas acamadas, ou com dificuldade na marcha. Esta é a opinião de alguém que desconhece os idosos que residem nesses lares, de quem não conhece o papel de excelência desempenhado pelos Lares da Costa Norte (e não só), na garantia de cuidados de saúde a pessoas cujas capacidades físicas e intelectuais se foram degradando, fruto da idade e das patologias a ela associadas. É na Costa Norte que se encontram os concelhos mais envelhecidos da RAM. E não tenho dúvidas que a construção de Lares para dar resposta a idosos que precisam de cuidados e acompanhamento diário foi uma boa medida. Sobre o mapa de intervenção social, apoios sociais e a distribuição de competências entre as IPSS, já tenho as minhas dúvidas. Mas sobre isso falaremos depois.
Orlando Fernandes