
A notícia do DIÁRIO de Notícias da Madeira de há uma semana e a mais recente publicada na última terça-feira sobre a necessidade do Governo Regional participar no leilão das obras de António Aragão lançaram o alerta na sociedade madeirense, motivaram uma série de intervenções públicas de figuras conhecidas nas nossas páginas e nas redes sociais, espoletando ainda inúmeros comentários ‘on-line’ no www.dnoticias.pt.
Entre conhecidos e anónimos, a maioria das pessoas que se referiram ao assunto foram unânimes na importância da Região adquirir as inestimáveis peças de António Aragão que vão a leilão, amanhã, na Agência de Leilões Mouraria.
Falamos de peças de Bordalo Pinheiro e de Rosa Ramalho, loiças da Companhia das Índias, salvas do século XVI, mesas portuguesas a partir do século XVII, mobiliário chinês, com portas do século XVIII, peças em vinhático madeirense, azulejos do séc. XVI hispano-mouriscos, pinturas a óleo, aguarelas, livros, documentos e muitos outros tesouros outrora pertencentes àquele que é tido como um dos maiores vulto da História, Cultura e Artes na Madeira.
Contudo, o Governo decidiu ontem, conforme noticiou o DIÁRIO, que não vai participar no leilão de sábado, exactamente porque está demissionário e limitado a actos de gestão. A justificação aceitar-se-ia se, durante este período, já não tivessem sido tomadas decisões noutras áreas. Certo é que, com uma omissão destas - gravíssima, atrevo-me a dizer -, deita-se por terra a possibilidade da Região garantir a manutenção na ilha das memórias de um homem que teve um percurso assinalável em várias áreas do conhecimento e que ajudou ao engrandecimento cultural dos madeirenses no século XX.
Ora, com um espólio destes era possível enriquecer e dar uso a um dos incontáveis espaços culturais mandados construir pelo Governo e que estão às moscas e dar-lhe um uso efectivo, criando um Núcleo Museológico ou até mesmo um museu, como o que existe em memória de Henrique e Francisco Franco (que é gerido pela autarquia do Funchal).
António Aragão e o seu legado mereciam outra atenção por parte das entidades públicas. Mas, tendo em conta o histórico do Governo nestas matérias, não é nada que surpreenda. Só a ardente esperança de que novos tempos vêm aí, com novos protagonistas, mais preparados e com outra sensibilidade, poderá minimizar em parte a desilusão pela forma como tem sido gerida a Madeira (e a Cultura).
“Descobrir um poeta é encontrar uma alma e uma época. É estanho e bom. Mas se esse poeta surge do passado longínquo rodeado de mistério e lenda, sua alma reaparece como uma flor desbotada que retoma viço e cor e a época oferece-se com um viver mais perto que se acusa. Descobrir um poeta é tocar um homem. Porém, um homem ímpar no seu tempo, um ser total, sem sofismas nem fingimentos – umas mãos abertas a todos os ventos interiores”. António Aragão, citado pela Biblioteca Municipal do Funchal, em http:/antonioaragao.blogspot.pt