Andreia Mendonça Faz hoje 5 anos que tudo aconteceu. Pelas 9h do dia 20 de Fevereiro de 2010 levantei-me para dar leitinho a minha bebé de apenas 15 dias, tomei o pequeno almoço junto com meu marido e minha mãe.... Estava sempre a chover...

As 09h45 estava a deitar-me novamente para descansar mais um pouco quando começamos a sentir a cama a tremer, pedras a rolar... A minha irmã que estava deitada foi jogada da cama quando a casa começou a tremer.... Eu queria me levantar para agarrar a minha bebé que estava na alcofa mas estava tão petrificada que não conseguia me mexer!

A minha mãe abriu a porta de casa para ver o que se passava quando viu a ribeira a galgar, água pelas escadas a baixo e imenso lameiro. Quando a casa parou de mexer levantei-me para ver que se passava e minha mãe olhou para mim e para o meu marido e disse para nos vestirmos rápido para sairmos de casa. Mas já não podíamos sair... A água era muita pelas escadas abaixo, não iríamos ter força nas pernas para lutar contra ela e a ponte que dava aceso ao outro lado da ribeira estava submersa.

Os nossos vizinhos subiram para a nossa casa porque na deles a ribeira já estava a entrar. O meu marido e um vizinho ainda conseguiram tirar outra vizinha de casa... Por esta altura já não tinha luz e nem fazíamos ideia do que se estava a passar. Pensamos que a ribeira simplesmente tinha enchido e que tinha caído pedras mas não era bem assim.....

Estivemos o dia todo em casa a ver a ribeira a saltar, a água pelas escadas, o lameiro.....

Por volta das 20h45 a protecção civil bateu-nos a porta e só nos disse que se queríamos ser evacuados tínhamos que sair imediatamente de casa para eles nos puderem ajudar a atravessar a ribeira..

Meu marido embrulhou a bebé em mantas quentinhas e eu só pus mais umas fraldas e roupas na bolsinha dela. Quando saímos meu marido ia à frente com a bebé e eu ia atrás de mão dada com a minha mãe e a minha irmã que quando viu que tínhamos que passar por imensa água e ficou muito nervosa e com medo.

Conforme íamos atravessando a ribeira eu fui ‘afundando` na lama ao ponto de ficar enterrada até à cintura. Comecei a gritar e a chamar pelo meu marido pois no meu ver não iria conseguir sair dali e nunca mais o iria ver e nem a minha bebé. A minha mãe gritava para ele não olhar para trás e sair dali com a nossa bebé....

A minha mãe e a minha irmã tentaram por varias vezes me puxar ate que conseguiram me tirar dali...

Quando chegamos ao outro lado da ribeira a protecção civil não estava, já tinha ido embora e sem evacuar ninguém, tinham dito que já voltavam e nada..

Estivemos tanto tempo na rua a apanhar chuva e frio até que uma vizinha abriu a sua garagem e deu a todos nós abrigo. Esperamos e esperamos e esperamos pela protecção civil e nada.....

Essa mesma vizinha emprestou-me roupa pois eu estava coberta de lama, pelas 23h ela fez para todos nós uma canja para nos aquecer... Não tínhamos carro nem sabíamos se ainda estavam inteiros...Nós pensávamos que aquela tragédia era só ali, mas quando voltou a luz e vimos toda aquela tristeza nem sabia que pensar..

Pelas 00h apareceram 2 almas com um carro que me tiraram a mim e à minha família dali pela estrada dos 3 Paus.... Assim que chegamos a estrada principal passou um carro da protecção civil que nos levou para Rg3 e nos disse que tinham ordens para evacuar a família da bebé recém nascida....

Fomos das primeiras famílias a chegar ao Rg3, fomos muito bem recebidos e acarinhados...

Deram um quarto com WC privado só para a minha família. Sei que nessa noite não dormi passei a noite toda acordada com a minha bebé nos braços e cheia de medo....Nós estivemos 2 semanas a viver no Rg3, tal como outras tantas famílias. Ficamos apenas com a roupa do corpo no dia 20, mas à minha bebé não deixaram faltar nada!!! Era a mais pequenina do Rg3.....

Foi complicado tudo isto...

Para resolverem a nossa situação foi preciso nos chatearmos a sério. Levaram-nos para o hotel do Pestana na Praia Formosa. Ficamos lá a viver durante 9 meses até que decidiram realojar-nos onde vivemos hoje...

Tanto eu, como minha mãe e outro vizinho ficamos sem carros, as derrocadas levaram tudo para a ribeira. O meu carro e o da minha mãe ficou num estado que ninguém dizia que já tinha sido um carro, pois o que sobrou deles cabia em cima de uma mesa....

Não foi fácil passar por tudo isto e ter que recomeçar a vida do zero e ainda ir ultrapassando os obstáculos que foram surgindo após tudo isto, mas aqui estamos 5 anos depois com alegrias, com tristezas, alguns com traumas e sequelas daquele dia, mas se aqui estamos foi que Deus quis...

Como dizem vão-se os anéis e ficam os dedos, tanto eu, como a minha família e muitas outras famílias jamais iremos esquecer tudo aquilo que passamos e o que sofremos e quem esteve sempre ao nosso lado. Desejo a todas as famílias que passaram por momentos difíceis como nós ou mais muita força e felicidade.

Agradeço a todos aqueles que estiveram verdadeiramente ao nosso lado nos momentos difíceis, jamais esqueceremos quem nos deitou a mão.