Há alguns meses, o meu amigo Nuno Morna desafiou-me para colaborar na elaboração de textos para o “Vou-te Bater – 12 Anos”, espectáculo de comédia que levou à cena com estrondoso sucesso, em delirante dupla com Pedro Miguel Ribeiro. Perante a intenção de fazer humor com a disputa pela liderança do PSD-Madeira, surgiu o 6º candidato, Adolfo Delfim de Jardim Dias, um megalómano populista com propostas estapafúrdias e absolutamente irrealistas. Tudo fica um pouco estranho quando se conclui que Adolfo Dias (ou Delfim de Jardim), poderia perfeitamente ser um personagem real, candidato às eleições do próximo dia 29 de Março. Aliás, num texto posterior inventámos-lhe um novo partido (lá iremos). Eis senão quando a ficção se tornou realidade: a minha primeira ideia foi imaginar que o 6º candidato a sucessor de AJJ seria o “Meias, Corta-unhas”. Até comecei a escrever o diálogo, no qual o peculiar vendedor ambulante tentava convencer um transeunte a subscrever a sua candidatura. Cheguei mesmo a interpelar o cavalheiro para saber da sua disponibilidade em participar no espectáculo (as himself), proposta a que acedeu de imediato. Entretanto o “sketch” seguiu outro rumo e esta opção foi abandonada. Qual não foi o meu espanto quando o descubro como potencial futuro Presidente do Governo, na remota eventualidade do MAS vencer as eleições. Ainda para mais constitui uma baixa de vulto nas hostes do CDS-Madeira, uma vez que o dito “Meias” é presença habitual nos eventos do partido. Reconheço-lhe, contudo, uma vantagem relativamente a muitos políticos no activo – vende “banha da cobra” o ano inteiro, e não apenas em período de campanha. Como irão os eleitores interpretar esta candidatura? Como uma forma de protesto? Como um novo Coelho? Dificilmente. Quando a “bomba” Coelho estoirou na política madeirense fazia sentido: personificava a outra face duma moeda que exibia a efígie de Jaime Ramos, era um produto do “jardinismo”, acabando por contribuir para enfraquecê-lo, expondo-se e expondo-o ao ridículo. Infelizmente, olha-se para o boletim de voto e nem parece que estamos prestes a passar ao lado dum momento único e irrepetível de fazer história, naquelas que (com algum exagero) poderão ser consideradas as primeiras eleições verdadeiramente livres na RAM. Afinal, nada de novo: os partidos de oposição não quiseram ou não souberam entranhar uma dinâmica e atitude de vitória, que passaria obrigatoriamente pela união de forças, optando antes pela dispersão e pela confusão. Parece ter havido a noção de que desta vez podia dar para muitos, e ala que se faz tarde: é o sempiterno PCTP/MRPumPum que surge em primeiro, prometendo baralhar os fieis votantes da CDU; é o PNR e o PDR que também se confundem na mente do eleitor menos atento; é o PND que se auto-resgatou da clandestinidade; é o JPP que recorre à prata da casa para tentar replicar a vitória autárquica, e mesmo correndo contra o tempo já assusta muita gente; é o Bloquinho que tenta regressar ao escalão principal; é o PPM + PDA que afinal é PDC; é o CDS que permanece firme e hirto no seu caminho, indiferente à paz podre que o corrói; é o PS que insiste na mesma fórmula de sucesso, mas com menos parceiros, que até ver são quem mais lucrará com a coligação; e finalmente é o PSD que vai tentando gerir as gaffes pontuais do novo líder, enquanto afina a máquina e vai fazendo as contas aos hipotéticos cenários de coligação pós-eleitoral. Há que escolher a cor do vestido de noiva – pode ser azul ou verde… Voltando ao início, lamento não ter recolhido assinaturas para o partido que inventei, pois nesta amálgama corria o risco de ter sucesso: o seu nome seria Movimento Esquerda Revolucionária e Direita Alternativa, e poderíamos ser agora muitos a gritar – “O Povo vai ter M.E.R.D.A. no poder”…

Raul Ribeiro