Nos dias de hoje, nas escolas, nas universidades, no desporto, na família, no grupo de amigos e em tantos outros locais públicos e privados, somos muitas vezes confrontados com um sentimento de indiferença, uma espécie de fazer de conta que não se passa nada. No fundo até parece que muitas vezes as pessoas ligaram o modo de sobrevivência e já se sentem muito felizes pelas desgraças só acontecerem aos outros. Assim, não é de estranhar que não exista grande indignação (diríamos mesmo que não parece existir nenhuma), por exemplo ao nível do sistema educativo e desportivo, por: - Existirem escolas (normalmente sempre as mesmas) que, de forma sistemática, ao longo dos anos inflacionam as notas dos seus alunos para que eles tenham mais probabilidades de entrar no ensino superior; - Existirem universidades e politécnicos (normalmente sempre os mesmos) que inflacionam as notas dos alunos dos cursos de formação de professores para que eles tenham vantagem nos respetivos concursos de acesso à profissão; - Existirem resultados desportivos viciados, seja por intermédio de programas de dopagem (inclusive patrocinados, por ação ou omissão, por países e organizações institucionalizadas), seja por truques e expedientes mais ou menos camuflados (muitos deles de conhecimento público) que vão da competição em si até às engenharias orçamentais; - O ensino básico e secundário e o ensino superior não darem resposta aos desafios que hoje se colocam e continuarem a preparar para o passado (comentário que nada tem a ver com empregos, mas sim com a formação de pessoas); - O Desporto estar a ser utilizado essencialmente como um fim em si mesmo e como meio de “promoção de egos” (dos desportistas, dos treinadores, dos dirigentes, dos pais, dos adeptos...), ou pior ainda, como “distraidor” - de onde resulta indiferença perante situações graves - e não como um meio privilegiado de transformação do Homem; - Etc. Tal como a avestruz até parece que se enterrarmos a cabeça na areia os problemas não existem ou desaparecem. Porém, o mais provável é que com a nossa indiferença e muitas vezes com a nossa cobardia, estejamos a contribuir para agravar o problema, pois tal como na maioria das doenças quanto mais tarde for feito o diagnóstico e começar o tratamento mais difícil será a sua resolução. Contudo, muitas vezes, o problema é bem mais grave que a indiferença pois ser indiferente significa que temos consciência de algo e optamos por não agir, ou melhor, agimos com indiferença. Outra coisa é nem sequer ter consciência dos problemas, aceitar que é tudo normal, que é a lei da vida, sempre foi assim e continuará a ser. Ora aí está outro grande equívoco, pois tudo tem um prazo de validade, mesmo que existam ciclos a mudança é inevitável. O ciclo de mudança é que pode ir de “um nanosegundo a vários milénios...”. A modificação deste estado de coisas, ao contrário do que por vezes se pensa, não se faz por decreto nem num “estalar de dedos”, é necessário, a título de exemplo, uma profunda modificação no processo pedagógico (nas escolas, nas universidades e politécnicos, nos clubes, na família...) de modo a que verdadeiramente se desenvolvam as capacidades e potencialidades de cada um e não que se continuem a formatar pessoas de acordo as vivências pessoais e com crenças e dogmas do séc. XIX (ou mais antigos).
Hélder Lopes Professor da Universidade da Madeira