Ainda bem que vem aí o Natal, faltam duas semanas. São as missas do parto com as excursões e cantorias que acabam nas sandes de vinho e alhos e licores caseiros, são os convívios das empresas e das famílias, são os encontros de amigos que não se falam durante todo um ano. Pelo menos não se fala tanto em atentados terroristas, em sobretaxa de IRS, em futebol e caixinhas, ciclismo e vitaminas. Até as trocas e baldrocas que os políticos promovem como espectáculos dão lugar aquelas sessões de cumprimentos de Natal até que cheguem as janeiras. Não há como a Festa para tirar-nos do sério, não esquecendo a parte religiosa, o Bom Natal a todos, o licor aqui e ali, o ar mais ou menos feliz dos grandes que acompanham os muito felizes pequeninos. E quem fica em casa só perde, pois a cidade e os centros comerciais oferecem horas de passeios felizes e copos alegres, animação e decoração para todo o gosto, com os típicos presépios a disputarem atenções. Parece que se atenuam as diferenças entre credos e bolsos, quer receba o subsídio por inteiro ou a duodécimos. Vão todos ao mercado embora não comprem nada, afinal ninguém quer andar com saquinhos a noite inteira. Vende-se mais cerveja do que vinho e toda a gente faz carne e vinho e alhos para ajudar o clube, a associação ou apenas porque é tradição. É um sarilho para estacionar, toda a gente arranja dinheiro para pagar parques nesta quadra, o pessoal das motas está mais feliz porque tem lugar e à borla. O pessoal do carro do lixo, o ardina, o carteiro, todos tão simpáticos a deixar o cartãozinho de Boas Festas, na esperança de uma gorjeta. Os porquinhos em cima dos balcões de tantos bares, o cheirinho a bolo do caco e sopa de trigo na Arriaga. Quem não gosta disto que se deixe ficar no sofá a ver os jogos adiados, a quinta das bestas em directo ou o Tarot da não sei quantas a falar de uma vida que nem conhece. No fundo, não tem nada a ver com submarinos nem Portas, se a gente não aproveita estas festividades e oportunidades para umas aventuras gastronómicas com consumos etílicos consideráveis mas de fabrico caseiro, o que é que podemos fazer quando quase todos se agrupam à volta de um tintantum ou licor de tangerina, com broas de mel ou de areia que a Maria fez? Toca a conviver depois do trabalho porque esta quadra acontece só nesta altura do ano, as pessoas estão mais tolerantes (vá lá senhor agente) e quase todas querem pagar qualquer coisa. E o que os comerciantes têm chega para todos, mesmo que faça como aqueles que promovem 50% sobre o dobro do que custava. Então nós também não recebemos dois meses num só de trabalho? Não gastem tudo, não comprem tudo o que mexa. Janeiro é o maior mês do ano e no princípio há coisas que são mais baratas do que milho em grão, para além de que pode chegar o ferry e vos apanhar sem um tusto para viajar. Também não bebam muito porque depois começam a dizer mal do governo (coitados, não têm feito nada) e quando chegar o Verão ele corta o subsídio de mobilidade. Poupem qualquer coisinha para além do fígado e lembrem-se de que nos supermercados as prateleiras com comida para gato e cão são sempre maiores do que as de comida para bebé. Vá lá, não se engane. Bom Natal
Paulo Gomes