Há dois meses que vivemos tempos estranhos na política nacional. Nestes pouco mais de 60 dias aconteceram coisas que não cabiam em nenhum dos cenários que o Presidente da República dizia ter previsto. E o Presidente disse que tinha tudo previsto. As eleições que deram a vitória à coligação PSD-CDS foram as mesmas que levaram o derrotado líder socialista a primeiro-ministro. António Costa perdeu, mas como os primeiros vencedores ganharam por ‘poucochinho’, foi o líder socialista que acabou por formar novo governo, depois de fazer cair a coligação, com apoio de ‘bloquistas’ e de comunistas. Essa parte da história parece ter sido compreendida por quem mora politicamente à esquerda, mas continua a ser um tremendo engulho para quem vive à direita. E vai certamente marcar o discurso político desta Legislatura, dure ela seis meses ou quatro anos. Mas há outra marca política que começa a ganhar terreno e que se manifesta de forma bem audível e visível através da Assembleia da República. Com poucos debates, já ficou mais do que claro que assistimos a um recentrar da política portuguesa ao Parlamento. É por lá que vai passar a governação do País. É lá que se vai saber o que de bom e mau fará o governo. Este regresso ao parlamentarismo promete vir acompanhado de uma efectiva fiscalização da acção governativa, como manda a Constituição e recomendam as boas práticas parlamentares. Claro que o PS não vai gostar, nenhum governo gosta de ter um parlamento forte e activo. Ministros e secretários de Estado e a máquina partidária socialista vão reclamar do aperto, vão sentir-se acossados, vão barafustar. E a oposição vai fazer o seu dever, mas de forma mais incisiva do que estamos habituados. Não por especial sentido de estado, mas porque a oposição se sente injustiçada, traída, frustrada por uma vitória que não chegou para aguentar o poder. E é com o poder a fugir entre os dedos que Portas e Passos lideram agora uma espécie de ‘guerra santa’ contra o governo que deixou de ser deles. A parte boa de tudo isto é que maior crispação política vai dar rédea curta a quem manda, vai dar visibilidade ao debate político e isso contribui para decisões mais cuidadas e assertivas e para uma maior transparência. A sociedade, cansada de governantes autistas, austeros e ‘troikistas’, agradece esta política que valoriza o debate parlamentar. Mas para que o resultado seja mais eficaz, falta convencer a agora oposição de direita a esquecer o debate estéril sobre a maioria e a legitimidade do governo. O ideal é deixar passar o azedume e transferir a agressividade para a política a sério, num Parlamento a sério.