A dor é possivelmente a razão que mais leva a população portuguesa a procurar cuidados médicos. Um estudo da Universidade do Minho revela ser mais prevalente do que o tabagismo ou mesmo a diabetes, ou seja, está mais presente num dado momento, durante a nossa vida, causando um sofrimento marcadamente multifacetado. A dor é um mecanismo de defesa e alerta contra uma lesão existente ou iminente e, como experiência sensorial, é complexa, está intimamente ligada ao estado psíquico da pessoa. É facilmente perceptível que alguém em sofrimento doloroso ficará preocupado e com o seu humor alterado. Se, habitualmente, for ansioso ou deprimido, essas características serão exacerbadas nesse momento. Influenciará também o sono, o apetite e, eventualmente, o líbido e a auto-estima. A associação da dor a quadros depressivos crónicos é evidente e facilmente entendida, em especial em ambientes urbanos e mais competitivos. A estas somam-se as consequências familiares e laborais. A dor crónica é a principal causa de absentismo prolongado do trabalho, nomeadamente as queixas crónicas de coluna e joelho. Portugal é o segundo país europeu com maior consumo de anti-inflamatórios, usado na dor, com os custos inerentes, nomeadamente pelos seus efeitos laterais. Uma modesta estimativa nacional aponta o “custo” da dor para os 730 milhões de euros, quase 10% do orçamento do Ministério da Saúde. Sendo a artrose das articulações a principal causa de dor, a associação dessa dor à perda de motricidade e ao sedentarismo é evidente, com consequências na qualidade de vida desses doentes. Os sistemas de saúde têm dificuldade em lidar com a dor, seja pelas dificuldades técnicas e por ela ser multifacetada, seja pela idade dos doentes, seja pelo facto do sucesso resultar muitas vezes da correcta integração dos diferentes cuidados e prestadores de serviços o que, a miúde, não acontece. É fundamental haver unidades especializadas no tratamento da dor como acontece na Madeira mas ter também a percepção que todos os prestadores têm de estar sensibilizados para o problema. Aqui salienta-se o papel da informação prestada ao doente, pois, para além de tratar, é preciso dar alguma autonomia para que este não dependa sempre, e em tudo, dos profissionais de saúde, de forma a proporcionar-lhe a melhor qualidade de vida possível. A minha Dor é um convento. Há lírios Dum roxo macerado de martírios, Tão belos como nunca os viu alguém! Nesse triste convento aonde eu moro, Noites e dias rezo e grito e choro, E ninguém ouve ... ninguém vê ... ninguém ... - Florbela Espanca

Mário Pereira, Deputado do CDS-PP