De forma simplificada o Primeiro-ministro francês Manuel Valls recentemente declarou que a França está em guerra contra o terrorismo.

Lembrei-me desta declaração face ao medo, ao pavor, e ao ódio religioso que existe neste momento nas capitais europeias, mas não consigo deixar também de pensar no que está a acontecer no seio das duas principais Forças de Segurança em Portugal, nomeadamente na PSP e na GNR, em que no corrente ano e até a presente data, catorze (14) elementos policiais já puseram termo a vida, por SUICÍDIO.

Voltamos nós, com a devida justificação pela teimosia maníaca ao tema, mas é urgente perceber o que leva estes profissionais de polícia, ainda tão jovens (e menos jovens) a tomar uma decisão tão drástica, por isso mesmo a ASPP/PSP/M, tem, obrigatoriamente, de voltar a falar sobre este assunto e desculpem-me novamente “bater” na mesma tecla por razões diversas.

É verdade que não existe comparação possível, mas merece uma atenção, em Paris fomos confrontados com imagens e com cenários de guerra. Nas forças de segurança em Portugal, estamos a ser confrontados com um “terrorismo silencioso”, chamado SUICÍDIO, pelo que nós achamos que o ESTADO PORTUGUÊS, deveria e deve declarar “guerra” a esta epidemia que está a afetar as polícias no seu território.

É neste cenário que, como descrevi, os especialistas defendem que pedir ajuda é o primeiro passo e também o mais importante, mas no momento do desespero, o grito é sempre de silêncio.

A mediatização da nossa atividade, é uma profissão de imenso desgaste sendo do ponto de vista emocional muito exigente. Por vezes são profissionais colocados longe do seio familiar, que são uma fonte de suporte importante e as folgas que têm não permitem visitas frequentes à família. Muitas das vezes trabalham 2 a 3 semanas seguidas para acumular as folgas para poderem estar com os seus parentes. Tudo isto provoca um desgaste enorme e ainda uma desesperança com o sistema que os devia proteger e investir neles, e não o faz.

Mas o medo e a vergonha ocultam a realidade de muitos homens e mulheres que servem as polícias, tendo como principais fatores associados aos suicídios, os problemas pessoais, acumulados com as exigências de uma profissão tão complexa como a que executam, pois existe uma crença em que o Agente tem que ser capaz de resolver tudo, como se fosse infalível e isso dificulta um pedido de ajuda, porque vai assumir ser fraco perante os colegas, perante as chefias, perante a bandeira que jurou defender e também perante os seus familiares.

Nesta situação e num curto espaço de tempo, repito 14 profissionais das duas mais numerosas cooperações policiais puseram termo à vida, daí que para nós estes números assustam e é cada vez mais uma emergência em atuar para prevenir desfechos tão fatais e o suicídio é apenas uma das respostas, a mais extrema de todas.

Já com 2016 no horizonte, a ASPP/PSP - M, assenta o mote pedindo uma atenção redobrada de todos nós e em especial à tutela – Ministério de Administração Interna, exige-se responsabilidade em ir mais além do que está previsto, não sendo suficiente criar um grupo de trabalho constituído por um representante do MAI, um representante da PSP e outro da GNR como solução para o problema. A presença constante e permanente de profissionais (psicólogos) em cada comando não é para nós uma questão de retórica, é uma realidade bem evidente, hoje, uma verdadeira âncora da prestação dos serviços de socorro, e para os quais têm que ser encontradas respostas.

Há, por isso, que inovar na estratégia, arriscar nos objetivos, ousar nos métodos e romper com modelos, que já tiveram tempo de sobra para mostrarem o seu valor e que presentemente são deficitários. É altura de dar o passo em frente, porque os tempos são o que são, não há volta a dar.

Adelino Camacho, Secretário Nacional e Coordenador Regional da ASPP/PSP – Madeira