No xadrez, quando um jogador é obrigado a jogar e dessa jogada resultará a perda inevitável de peças e no passo certo para a derrota, diz-se que está em “zugzwang”.

Presságio de um xeque-mate, o “zugzwang” força o jogador a jogar, quanto todas as opções de jogo lhe são negativas, empurrando-o lentamente, e de forma segura, para a inelutável capitulação final. Por vezes a arte imita a vida, neste caso é o xadrez que se assemelha à política. Por becos e atalhos conhecidos, o Partido Socialista perdeu as eleições e António Costa chegou a primeiro-ministro. E se chegou lá com o apoio dos partidos de esquerda, governará com eles e com os 3 acordos assinados - que afinal não são acordos, são posições conjuntas dos partidos sobre solução política. E quando não houver acordo à esquerda? Ou quando a solução política não tiver resposta nas 6 páginas de cada acordo? Pior, e se a solução não for transversal a todos os partidos? Afinal, a simples existência de 3 acordos, implica a admissão de algum desacordo. A pergunta é simples: Neste Governo, de quem é a última palavra? Os acontecimentos das últimas semanas têm sido verdadeiramente esclarecedores. Na Assembleia da República, o ritmo dos “momentos históricos” é ditado por Catarina Martins, aboliu-se a taxa de moderadora de 7,75€ aplicada a alguns abortos, as crianças estão mais felizes pois deixaram de fazer exames e tudo se prepara para a legalização das “barrigas de aluguer” em Portugal. Muitos argumentos a favor, outros tantos contra estas iniciativas, mas nenhum justifica o frenesim com que tudo foi feito. Em contraste, o Orçamento de Estado, essencial para cidadãos, empresas, investidores – e especialmente para nós, madeirenses – tê-lo pronto a Março de 2016 não é um prazo razoável. O mesmo orçamento em que António Costa abriu mão da descida na TSU em troca da sua aprovação, só para agora deparar-se com novas exigências, desta feita na sobretaxa e nos salários da Administração Pública. As encruzilhadas só agora começaram, mas prometem estreitar-se até que a escolha de Costa seja entre proteger o seu governo ou salvar Portugal? O Governo tem 6 dias e António Costa parece-se cada vez mais com aquele jogador de xadrez, obrigado a jogar, sabendo que qualquer opção será, eventualmente, fatal para a sua carreira e para este Governo. Catarina e Jerónimo fazem política como jogadores de xadrez, António Costa governará como um jogador de damas.

João Paulo Marques, Advogado