O CDS Madeira realiza o seu congresso em Dezembro, no qual definirá a sua estratégia e escolherá uma nova liderança. O partido encontra-se numa encruzilhada e para sair daí carece de argúcia nas decisões se não quer comprometer o seu sucesso futuro.
José Manuel Rodrigues liderou o partido desde 1997 e renovou-o, quer no que concerne à doutrina quer em relação ao seu posicionamento político. Despindo-se, inteligentemente, da ortodoxia ideológica, abriu-se à sociedade, o que permitiu crescer em votos, deputados, militantes e simpatizantes.
É notório que o grupo parlamentar que José Manuel fez eleger demonstrou ser o mais competente e dinâmico, com quadros qualificados que sabem do que falam, ao mesmo tempo que é gerido com equilíbrio e coesão por António Lopes da Fonseca, factores que nos distinguem claramente de outros partidos.
A solidez das propostas que o grupo parlamentar apresenta resulta, em muito, do empenho e da astúcia jurídica emprestada por Ricardo Vieira, como exemplificam a determinante acção popular contra a “loucura” que seria construir as seis torres hospitalares no Ribeiro Seco ou a inconstitucionalidade do Regimento da Assembleia. Por outro lado, nunca os madeirenses fizeram eleger tantos autarcas do CDS Madeira, reconhecendo o trabalho por eles realizado com a vitória na Câmara de Santana.
Este crescimento, para o centro do espectro político regional, permitiu a José Manuel liderar a oposição e enfrentar o regime jardinista no apogeu da sua arrogância, desnorte e falência financeira da Região, cujas consequências para os madeirenses hão-de perdurar nos anais da nossa História colectiva. José Manuel foi o líder certo nesse momento difícil.
Para sobreviver ao seu próprio funeral político, o PSD Madeira viu-se forçado a afastar o seu líder carismático, o Dr. Jardim, mas isso não impediu o partido de manter a serventia aos interesses económicos que gravitam à sua volta e o condicionam. “Renovado” com Miguel Albuquerque, o PSD ganhou as eleições à tangente (12 votos em 127.539 votantes deram o 24º deputado e a maioria absoluta). Além disso, o desgaste da imagem de José Manuel ao longo de muitas eleições, muitas vezes assumindo excesso de protagonismo, associado à dualidade, difícil de gerir, de ser oposição na Madeira e estar coligado com o PSD na Republica, determinaram o dramático resultado de 6% nas eleições de 4 de Outubro de 2015. O CDS perdeu apoio no eleitorado urbano, jovem e classe média. A mensagem, por mais que nos doa, foi inequívoca: a população quer um novo líder.
É fundamental saber qual e o caminho a trilhar despois do desaire. Voltar a ser um partido de essência democrata-cristão tradicional e eventualmente mais próximo do PSD Madeira? Ou seguir um caminho distintivo e independente, inspirado num pensamento de cariz social que é personificado, por exemplo, na figura do Papa Francisco? Apostar num projecto mais popular, ou até mesmo liberal, mais ao centro e vincadamente alternativo ao PSD Madeira? Que cooperação deverá ter com o PS? Como lidar com o JPP? Qual deverá ser a estratégia autárquica? Que figurino de liderança responde aos novos desafios? A renovação ocorrerá em um ou em dois tempos? Espera-se que o congresso saiba responder a estas questões.
Creio, convictamente, que o CDS tem duas personalidades que associam inegáveis qualidades políticas a uma boa imagem junto da população: Rui Barreto e Teófilo Cunha. São pessoas capazes de disputar com sucesso as eleições Regionais de 2019, retirando de vez a maioria ao PSD e forçando finalmente uma mudança política efectiva no rumo da Madeira. Teófilo Cunha optou, e bem, no meu entender, por cumprir o seu mandato autárquico e será muito provavelmente reeleito. Rui Barreto é pois o candidato natural do CDS a essas eleições regionais. Tem experiência, tacto político e a clarividência que falta a Miguel Albuquerque nos dossiês económicos, bem como não está preso a nenhum grupo económico. Assim direi no congresso.
E acrescentarei mais nesse encontro de reflexão e debate com os militantes: que precisamos de um partido verdadeiramente aberto, transparente e clarividente, capaz de dialogar sem dogmas com a sociedade, de encontrar novas e reais soluções para os prementes problemas dos madeirenses. Um partido que não tenha medo, nem vergonha, de atrair mais independentes e quadros com competência e méritos reconhecidos na sociedade. É isso que temos tentado fazer no sector da saúde, onde colaboro com mais assiduidade. Um partido que tenha uma voz mais forte e firme na educação. Que saiba estar em melhor sintonia com os agricultores madeirenses. Que seja particularmente inovador nas propostas que permitam à nossa economia insular travar o maior drama social que é o desemprego. Que saiba acolher e potenciar o talento, a inovação e a vivacidade dos mais jovens. Que saiba ouvir quem trabalha e compreender as necessidades dos empresários, sem incorrer na hipocrisia de concordar sempre com todos ao mesmo tempo.
Um partido que esteja organizado. Que tenha orgulho e transparência nas suas contas. Que tenha uma sede própria para acabar com os desperdícios do “outsourcing” de instalações, à semelhança do que fez recentemente o PCP Madeira. Que respeite e dignifique os colaboradores e voluntários a quem o CDS Madeira muito deve.
Qualquer que seja a opção dos congressistas, certamente haverá responsabilidade e moderação. O CDS necessita de um novo fôlego, de respirar os novos ventos, mantendo, todavia, a sua insofismável probidade de partido sereno, com princípios e valores já bem estabilizados. Um dia seremos governo. E estou seguro de que não iremos desiludir os madeirenses.
Mário Pereira