Democracia é confronto, dissenso e busca constante de equilíbrio mediante diálogo, negociação e compromisso, por entre interesses opostos e, não raro, fracturantes. Mas é na diversidade dos contributos que reside a sua riqueza, saibam os seus atores capitalizar as convergências, dirimir as divergências e assumir sem medos, o mínimo denominador comum dos acordos políticos, aquilo que poderá significar o melhor bem para o maior número. Numa democracia desenvolta, não há partidos do “arco do poder” e partidos dele excluídos, como se fossem destituídos de legitimidade para tal! Neste sentido, a possibilidade de acordo entre partidos de esquerda, para a viabilização de um governo respaldado numa maioria parlamentar consensualizada, é apenas uma natural evolução e desenvolvimento da democracia, à semelhança de tantos outros países por essa Europa fora e poderá significar, caso vingue, uma mudança de orientação política, que traga alguma esperança aos muitos portugueses atingidos negativamente por quatro anos de governo de direita. Entende-se ser este um processo complexo, a exigir muita lucidez na discussão de opções, de modo a potenciar ganhos de conjunto para a população. Goste-se ou não, inaugurou-se uma etapa na vida política portuguesa e nada será como dantes. Como diz a Constituição, é a partir dos deputados eleitos que se constituem as maiorias que suportarão um futuro governo. Mais importante do que o Primeiro-ministro, contam as medidas concretas de política, essas sim, com implicação na vida das pessoas. Por outro lado, os partidos institucionais de esquerda precisam perder o medo de eventuais perdas identitárias, em favor de valores superiores: a vida das pessoas. Há que sair das trincheiras da retórica, não desperdiçando oportunidades de, no formalismo das regras, juntar esforços na luta pelo bem-estar das populações, aqui e agora. A direita une-se sem pejo. O povo saberá avaliar. É natural que a chamada aristocracia do poder, das influências e dos grandes negócios, historicamente repousada na governação, considere um ultraje que partidos com diferenças programáticas, se entendam para possibilitar um apoio maioritário a um governo de esquerda no parlamento, contra o “status quo” de governar sempre o partido que teve mais votos, ainda que em minoria. Estranho é não ter havido igual clamor em 2011, quando aquela coligação – negativa ou positiva? – juntou partidos de direita e esquerda para derrubar um governo também ele minoritário… Ou que, partidos que tinham ido separados a eleições, e feito também gala das diferenças entre si, se tivessem coligado para formar o governo absoluto que nos últimos quatro anos geriu e fracturou o país… É preciso travar a destruição do nosso Estado Social, essa sim ameaçadora para a liberdade e a democracia. Sem uma justa redistribuição da riqueza e proteção dos mais frágeis, nunca haverá paz. A doutrina social da Igreja e recentes relatórios de reputados economistas vão nesse sentido. Relembre-se ainda a consensual salvaguarda do Estado Social, enquanto instrumento de estabilidade social e política, da social-democracia à democracia cristã, por toda a Europa democrática do pós-guerra, o que impediu que doutrinas totalitárias transpusessem a cortina de ferro e contribuiu para a queda do muro de Berlim. Não assustam os agitados fantasmas do medo e do radicalismo. Já passou muita água debaixo da ponte do PREC de 75, do confronto da Fonte Luminosa e das reviravoltas geopolíticas das últimas décadas. Os contextos são outros. Até Cuba está a abrir-se ao mundo… E quanto a radicalismos, que dizer das práticas governativas, para além da “troika” que tiveram como consequência, isso sim, o aprofundamento das fracturas entre a sociedade portuguesa e o empobrecimento de grande parte da classe média nos últimos quatro anos? Os beneficiados pela governação – porque os houve - pretendem, como é natural, manter um estado de coisas que lhes é favorável… Quanto à submissão às regras de Bruxelas, importa também relembrar, se, em defesa da Europa da solidariedade, a atitude mais congruente com os princípios fundadores da mesma União, será a submissão indiscutível a normas que aprofundam as desigualdades entre países ricos e pobres, ou a discussão dessas mesmas regras, em defesa dos cidadãos. Quem são afinal os radicais? O acordo da esquerda talvez funcione. Ou não. Mas, para ser entendido como entendimento efetivo, deveria ser subscrito por todos os intervenientes, e o governo a constituir-se deveria contar com o seu envolvimento substantivo. A não ser assim, fica sempre um sentimento de incerteza, sobre o que se irá passar em momentos de conflito. E a amarga perda da oportunidade ou a expectativa defraudada… O Papa Francisco, sobre a Igreja, diz ser este o tempo de olhar a realidade das pessoas, ao invés de continuar no ritual de secas ideologias e ortodoxias doutrinárias, que redundam muitas vezes em áridos desertos… Na política também.
Julia Caré