
Amanhã, segunda-feira, começa o processo de rejeição do governo de Passos Coelho e Paulo Portas e dentro de poucos dias haverá um novo, liderado por António Costa, ao que tudo indica com muitos independentes de esquerda e com o apoio parlamentar de BE e PCP. É este o cenário mais provável para os próximos dias, mais de um mês depois das eleições legislativas.
Por mais que se multipliquem os alarmes, sirenes e discursos bolorentos anunciando um apocalipse vermelho, com foices, martelos e estrelas, é assim que vai acontecer. Nem Cavaco Silva tem argumentos para outra coisa.
O que já começa a preocupar é o disco riscado de parte da direita que a todo o custo quer convencer-nos de que um partido que perdeu as eleições tem de viabilizar o governo de quem ganhou, mas sem maioria absoluta. Por muito que custe, não é assim em democracia, cada um vota como lhe apetecer e apoia ou rejeita o que bem entender.
É óbvio que teria sido muito mais saudável para o país que alguém tivesse conseguido a maioria dos deputados de São Bento, fosse a coligação de direita ou o PS, mas não foi assim que aconteceu. E em democracia há uma regra: cada povo tem o governo que merece. Por isso, mais valia baixar à terra e aceitar a aritmética parlamentar.
Somas de votos e mandatos que, a todos os níveis da organização democrática, conduzem a coligações variadas, das mais esperadas às mais heterogéneas. Na câmara de Loures, só para dar um exemplo, o PCP governa com o apoio do PSD. E o presidente até é Bernardino Soares, aquele rapaz que não tinha a certeza de que a Coreia do Norte era uma ditadura. Por isso, não vale a pena falar em oportunismos, porque todos já participaram em acordos complicados.
A conjugação de interesses Assembleia da República, ao contrário do que se apregoa, até pode garantir um governo para toda a legislatura. Desde logo porque os partidos que vão apoiar o PS no parlamento querem tudo menos ir para eleições.
O lado bom desta moeda política são as promessas de baixar o peso da austeridade. Mesmo que seja para 'inglês ver', sempre deixa a malta mais animada com a promessa de que, no próximo ano, quase que vai ter o Natal por inteiro e um bocadinho das férias. Garantidos devem estar o feriados que desapareceram. Só por isso já vale a pena.