Queria, nesta ocasião, trazer à reflexão, uma frase ou slogan que já todos ouvimos ser dito por muita gente, com diferente nível de responsabilidade económica, social e política, originária de diverso quadro ideológico e partidário e com formação académica e cultural diversificada. A última vez que ouvi esta afirmação, ela foi produzida por uma pessoa que estava a passar por um período difícil da sua vida e a vivência dessa realidade deixa marcas e dói, pelo menos em qualquer pessoa sensata, como não pode deixar de ser. Essa pessoa estava furiosa, não tanto com o que lhe estava a acontecer, com as situações amargas que tinham vindo embater nela, mas consigo própria e dizia que se fosse uma pessoa a sério, uma pessoa como deve ser, esquecia isso tudo, deixava isso tudo atrás das costas e pensava positivo. Lembramo-nos todos de situações e de pessoas que diziam e dizem que quando olhamos para uma realidade em vez de a vermos na perspetiva do copo meio vazio, temos de vê-la como copo meio cheio e pensar positivo. Claro que o pensar positivo, é uma frase que dá para tudo. Por exemplo: dá para o estacionamento, vais arranjar um lugar para estacionar junto à loja, não te preocupes, pensa positivo que vai aparecer um lugar; dá para a crise económica, falta dinheiro para adquirir algo que queres, não te preocupes, pensa positivo que vais conseguir; dá para o estudo, não estudaste mas não te preocupes que vais conseguir obter bons resultados nos testes de avaliação, pensa positivo. Se pensarmos a sério sobre este raciocínio, somos levados a considerar que estamos a partir do pressuposto de que somos pouco inteligentes e pouco conscientes da realidade. Na verdade, parece que, independentemente das coisas significativas que acontecem na vida e em vez as vivermos com verdade e empenho, retirar as consequências das nossas decisões, encher o peito de ar e fazermo-nos “ao largo”, isto é, enfrentarmos as situações no sentido de as ultrapassarmos e as transformarmos, o que acontece é que falamos de um conjunto de entidades abstratas que, aleatoriamente, parecem controlar o “destino” do nosso caminhar ou de um grupo de pessoas que passam a vida a repetir que o que é realmente importante é a autoestima, a autovalorização, é privilegiar o otimismo em vez do pessimismo, a resiliência em vez da passividade e de tudo aquilo que nos faz fraquejar. De repente, é como se passasse a ideia de que é possível crescer sem “dor”, ou seja, sem fazer frente às dificuldades inerentes a qualquer processo de mudança, sem enfrentar o sofrimento que resulta deste crescimento, deste ousar percorrer novos caminhos e de trilhar percursos desconhecidos. É verdade que temos, nos dias de hoje, muita dificuldade em lidar com a “dor”, com qualquer dor, quer seja a nossa quer seja a dos outros. Por isso, assistimos, muitas vezes, a uma atitude patética de muitas pessoas da nossa sociedade que tentam passar a ideia de que o sofrimento não existe, de que não há dor e que nada se passa dessa forma. É preciso assumirmos que há um tempo para analisarmos as coisas interiormente, as interiorizarmos e um tempo em que temos de olhar para a frente e avançar, sem ficarmos indefinidamente agarrados ao passado e à memória. Aí sim é tempo de pensar positivo, de olhar em frente com o entusiasmo que resulta de uma vida com projeto e com sentido e não contagiar os outros com tristeza e desânimo. Pensar e viver a sério a vida implica cometer erros e enganar-se, lidar com dúvidas e incertezas, conviver com paradoxos, conflitos e contradições, pois são mesmo estas últimas que apelam, com muita intensidade, para as nossas convições. E aquilo que parece que muitos querem transmitir é que as dúvidas, as contradições e as incertezas fazem mal, que é necessário passar sobre tudo isso uma camada de creme e fazer de conta que não existe, que é fictício e que o mundo é uma euforia permanente. O que interessa verdadeiramente é a alegria, que se conquista mesmo num contexto pintado de dúvidas e de contradições e que permite realmente sermos verdadeiros, consistentemente envolvidos e empenhados na vida, coerentes na tomada de decisão com os valores e princípios em que acreditamos e não apenas pensar positivo. E o ser verdadeiro passa igualmente pela capacidade de se perdoar a si mesmo, não numa linha de esquecimento, para branquear esses acontecimentos menos conseguidos, mas numa perspetiva de compreender que na dinâmica de vida, a falha é uma realidade presente e inerente à natureza humana.
Marco Gomes