Renato Azevedo Primeiro Deus criou o Céu e a Terra, depois… criou o Homem e o Homem cresceu e multiplicou-se. Alguns espécimes defraudaram o Criador mas, contra isso, já Deus ‘nada poderia fazer’ porque o Homem havia entretanto ganho a sua emancipação, para o bem e para o mal. Não, este introito prévio não constitui excerto de uma homilia dominical ou de um qualquer sermão de um Sr. Vigário ao seu rebanho. Constitui, isso sim, uma primeira reação da minha pessoa à vigarice que acabei de ler em artigo do DN sob o título “Programa Eco-Escolas com pouca eficácia”, escrito que dava conta dos resultados de um alegado ‘estudo’ levado a cabo pelo ‘investigador’ Dr. Hélder Spínola. A diferença de opinião é um direito fundamental em democracia, direito que defendo ‘com unhas e dentes’ pois, considero, muito daquilo que de grandioso a nossa civilização alcançou até hoje teve como força motriz a pluralidade de opinião. Nem todos podemos defender as mesmas ideias ou corroborar das mesmas opiniões. Isso, não só aceito como louvo. O que já não posso aceitar de ânimo leve é que alguém como o Dr. Hélder Spínola, escudado por interesses que nada têm a ver com o cândido hábito com que se apresenta no referido ‘estudo’, ponha em causa o trabalho de milhares de escolas deste país, de milhares de docentes, profissionais não docentes, encarregados de educação e alunos das nossas escolas, usando-os como cobaias para lograr alcançar os seus dúbios intentos! Se não vejamos: que credibilidade pode ter um estudo cujas conclusões têm por base estatística o ‘trabalho de campo’ realizado em – pasme-se! – apenas três escolas? Que credibilidade pode ter um estudo cujos resultados alicerçam única e exclusivamente na suposta literacia ambiental – pasme-se novamente! – de alunos de 9.º ano das mesmas três escolas? Já ouviu falar em amostra representativa da população, Sr. Dr.? Mais, o referido ‘investigador’ refere no dito artigo que os níveis de literacia ambiental dos estudantes das Eco-Escolas “não são significativamente superiores aos obtidos pelas escolas que não estão galardoadas com bandeira verde”, manifestando um total desconhecimento daquele conceito, visto que reduz a literacia ambiental aos seus primeiros patamares: conhecimento sobre os sistemas e processos naturais e humanos; compreensão genérica sobre a relação entre o ambiente e a vida humana; e atitudes de atenção e preocupação sobre o ambiente/sustentabilidade. Ora, o referido ‘investigador’ “esquece-se” que o conceito de literacia ambiental é bem mais abrangente, abarcando patamares mais elevados como: competências para desenvolver análises críticas e resolver problemas; e capacidade para a ação individual e coletiva e participação cívica. É portanto perfeitamente natural que os níveis inferiores de literacia ambiental (ao nível do conhecimento e compreensão) sejam muito semelhantes em toda a população escolar de uma determinada geração, uniformemente influenciada quer pelos curricula escolares onde esses conhecimentos são transmitidos ou pelos media que divulgam as questões relacionadas com o ambiente. Para chegar a essa brilhante conclusão não precisava despender o seu precioso tempo em tão árduo estudo, Dr. Hélder Spínola! Poderia pura e simplesmente perguntar a mim ou a qualquer outro professor coordenador do programa Eco-Escolas com um mínimo de experiência! É que eu, Sr. Dr. Hélder Spínola, já tenho dez anos “disto”! Em suma, o mais importante e aparentemente descurado pelo Dr. Hélder Spínola no seu ‘estudo’, e que verdadeiramente caracteriza a literacia ambiental dos diversos atores das Eco-Escolas, é a capacidade de agir individual e coletivamente num exercício de cidadania ativa, já que o conceito de literacia ambiental vai muito além do conhecimento, compreensão e preocupação com o ambiente. O que diferencia as Eco-Escolas das demais não são efetivamente os níveis de conhecimento mas antes o facto de os estudantes das Eco-escolas atingirem mais facilmente os últimos degraus da literacia ambiental, ou seja: a AÇÃO! Porque é seguramente na mudança de atitude que reside a diferença de literacia ambiental dos alunos das Eco-Escolas. A terminar, se efetivamente o Dr. Hélder Spínola reúne as qualidades de ambientalista que efetivamente lhe reconheço, espero que tenha o cuidado de não imprimir o seu estudo ou, a fazê-lo, que o faça num papel de gramagem bastante ‘light’ pois, dessa forma, quem sabe, o mesmo não poderá ser objeto de reutilização? O Ambiente agradece!