Cipriano Baptista Gouveia Sentir a envolvência. As ondas. A contínua ondulação das coisas. O mar imenso. Gente que chega e outros que partem. Cada qual é um sobrevivente, depois; tudo é uma possibilidade, tudo é um desafio. Não há certezas, e, no espaço da incerteza é onde começa alguma liberdade. Mas o que é a liberdade. Junto ao mar há sempre alguém a sinalizar um ponto na vasta distância. Caminhar à beira-mar. A cada passo, o mar apresenta-se diversamente. Passar debaixo da penetrante luz. Há uma expectação, uma inquietação, transpor, partir, fluir, o reflexo do sol enquanto não chega a noite profunda. Olhar para cima e ver o firmamento, a noite imensa como se houvesse uma outra força a puxar tudo para fora. Os rochedos, o casario nas encostas, o movimento do trânsito automóvel, as ruas e as pessoas, as árvores ao longo dos passeios. Navios de agora e doutro ora. O tempo que passa. A realidade. O que é o tempo? A relação com o passado, a relação com o presente. «Todo viver é viver-se, sentir-se viver, saber-se extinto, é essa surpreendente presença que a vida tem para cada qual. A pedra não sente nem sabe ser pedra: é para si mesma, como para tudo, absolutamente cega. Ao contrário, viver é, acima de tudo, uma revelação, um não contentar-se com ser, ver o que se é, um inteirar-se» As afinidades, o bulício e o silêncio. Cada instante é uma onda do tempo. A realidade é sobre tudo uma palavra que descarta qualquer inquietação que não seja questões práticas. E é na realidade que tudo se baseia. Em frente à recém-construída enseada, gente sentada a receber a luz do sol em todo o seu corpo, duas crianças competem a lançar pedras para o oceano, um casal de mãos dadas caminha lentamente num quase exagero de teatro, com certeza que já recolheram alguma concha, ou alguma pedra amoldada pela corrente do tempo. Mais à frente um individuo empilha pedras, uma a uma, talvez, procure um ineterminado equilíbrio. A tarde começa a findar e o céu de repente tornou-se numa penumbra quase irreal, começa a chover e todo o anfiteatro está recluído numa quietude de ausência, algumas pessoas nas paragens, e um homem que passa com um carrinho de bebé a transportar dois ou três cães lá dentro. E sobre o porto uma revoada de gaivotas. A contínua ondulação do tempo, o mar e a vida. A passagem das horas.