O tempo é, de novo, da política. Antes e acima de todo e qualquer outro assunto.
Principalmente por parte de quem se reclama a condição de político... mas não só. De todos nós, cidadãos, nomeadamente no sentido de fazer com que assim seja. Por várias razões.
Primeiro, porque nos cabe a responsabilidade de dizermos o que queremos. De forma clara e exigente. Sempre e não só quando colocamos o voto na urna. Porque as questões públicas, e o modo como entendemos que as mesmas devem ser tratadas por quem foi escolhido para as conduzir, devem constituir-se como, mais do que preocupação, exigência. Diária. Exigência essa que nos obriga, naturalmente, a estar atentos a todas as circunstâncias e a tentar perceber, desde logo, se o que nos prometem (ou dizem ir fazer) é possível de realizar. Ou se, pelo contrário, sendo a “esmola grande”, nos deve colocar de sobreaviso. Ainda e inversamente, se o que nos propõem ou fazem, não prioriza o que entendemos que deveria sê-lo ou fica aquém do possível.
Em segundo lugar, o que não significa menos importante (antes pelo contrário), porque não nos podemos esquecer do que sucede quando a política deixa de ser o motivo e o objectivo determinante de qualquer governação. Temo-lo visto um pouco por todo o lado e na Europa em particular. Neste preciso momento com o tema dos refugiados. Noutro plano e não há muito, com o tema das “eurobonds”, instrumento fundamental à superação da crise que todos atravessamos. Mas também no nosso país. Em vários planos. De que salientaria, pela dimensão estratégica que tem, a inexistência de políticas consistentes, abrangentes e integradas, dirigidas à Diáspora, que contemplem a Cultura, a Educação, a Economia e que tenham a lógica de uma via de 2 sentidos. Assim construindo um país que seria indiscutivelmente maior do que as suas fronteiras, com todas as consequências positivas decorrentes.
Dito isto, este tempo de “politique d’abord” não pode deixar de ser de valores. Desde logo, de respeito pelas opções dos cidadãos. Opções essas que, sendo claras, têm, segundo já percebemos nas últimas semanas, várias interpretações possíveis. Dependendo (mais do que do ponto de vista pessoal) do posicionamento político-partidário de cada um. A que se aduzem justificações que visam acalmar a consciência individual. Por uns, explicáveis pela abertura constitucional. Por outros, pelas práticas históricas da nossa democracia de 40 anos, em diversos momentos da mesma.
Da minha parte, enquanto cidadão com um perfil eminentemente institucionalista, tenho, obviamente, a minha perspectiva sobre o tema, sendo que, neste momento e infelizmente, me resta (como a centenas de milhares de outros) aguardar. Por ora. Em especial pelos veredictos dos diretórios partidários e do Presidente da República.
Mas, na sequência daqueles, e sejam eles quais forem, não se pode esmorecer nem adormecer. Outrossim garantir que, a partir de então, ficamos todos mais atentos, exigentes e atuantes. Porque, acredito, a abertura desta caixa de Pandora na política Portuguesa veio para ficar. E vai induzir (e acentuar mesmo !), de ora em diante, mais clivagens entre cidadãos, em matéria ideológica. Com consequências imediatas no plano político-partidário, como, aliás, já se está a perceber em duas dessas forças. Mas também nas relações humanas e institucionais. A vantagem pode ser o assistir-se ao desaparecimento de algum cinzento. Em especial o da indiferença. Porque o tanto faz deixa de existir. Agora, pelo que se percebe, o tempo é “de direita ou de esquerda”. Ponto final, parágrafo, linha abaixo, como é usual dizer-se. Mas o “centro”, “onde, alegadamente e também segundo o Povo, está a virtude” não morreu. Pode, porque tem espaço ideológico e político, renascer.
Porventura até mais forte.
Diria mesmo, à laia de exemplo, que a 1ª demonstração vai ser já observável, em função da que vier a ser a solução governativa implementada, durante o período eleitoral para a escolha do futuro Presidente.
Francisco Santos