Parece-me justo que assim seja - 12 anos de contenção, um de folga. Partindo do princípio incontestável de que somos nós sempre a pagar pelos erros dos governos que sucessivamente têm gerido os destinos e desígnios do país. Por isso e para mim, toda esta conjuntura política resume-se a uma luta de galos parlamentares com sede pelo poder. No contexto europeu onde estamos inseridos, pouca margem de manobra existe para políticas guiadas por extremismos venham eles de qual seja o quadrante. Por aí, estamos seguros. Agora se vai resultar ou não, se vai ser bom ou não, não sabemos. Mas duma coisa temos certeza. Viver mais 10 anos, como foram os últimos 10, não é viver. É ser como um cavalo que corre atrás duma cenoura que nunca alcança. Não nos foi permitido sequer ver uma luz ao fim do túnel que não fosse um comboio em sentido contrário. Não absolvo nem esqueço todo o constrangimento que o último governo socialista nos trouxe e tenho a certeza que nenhum português o faz ou quer fazer. Mas também não me esqueço das decisões erradas tomadas pelos governos de direita anteriores, principalmente pelos liderados pelo Sr. Silva. Sou pelos valores de direita e conservador mas, há limites. Nem que de vez em quando, tenha que ser a realidade a nos mostrar. De resto, interpreta o que quiser, quem quiser e como quiser. Detesto unanimismos conseguidos por osmose. Por contágio da opinião que prevalece sobre as outras por um outro direito que não seja a consciência de cada um.

Tudo normal no reino. A esquerda ganhou à direita que antes tinha ganho à esquerda. Aos actores, não resta outra atitude senão respeitar. Nem é sequer nada de novo. De nada vale espernear, fazer birra, forçar credibilidades e descredibilidades, invocar a figura dos temerários mercados que nos trucidarão, a tradição... É a Democracia. A Constituição diz que é assim, que pode acontecer. E aconteceu. Pela primeira vez aconteceu. Ganha a Democracia. Forçará próximas candidaturas a trabalharem em consensos mais alargados logo à partida. Espero que seja o fim das maiorias absolutas que têm permitido que se tenha feito mal, sempre sem culpas nem culpados, ao país e ao longo de décadas. Ninguém ali é santo nem demónio. É pela maturidade democrática dos portugueses que devemos ansiar e não por encarneira-los pelo medo, seja qual for o contexto. É tudo muito democrático mas todos querem maiorias absolutas para não terem que encontrar entendimentos com ninguém.

Na prática e muito objectivamente, acho que teremos um desafogo durante um ano, após o qual, seremos quase obrigados a rever e a reajustar esta passeata de Costa. Por via desse reajustamento o PCP e o BE vão roer a corda e o governo acaba por cair e teremos então novas eleições. Costa morre para sempre. PS cai em frangalhos. PSD sobe. BE sobe no espaço anteriormente do PS. PCP sobe nesse mesmo espaço mas menos. Desce o CDS também porque, depois disso, o PSD não deverá precisar dos centristas para ganhar com maioria absoluta. Um CDS que desapareceu ideologicamente por entre fusões com os cortinados fortemente laranja de Passos. Acho que é bom para a Democracia toda esta agitação. Obrigará os partidos a procurarem mais consensos para o futuro e a escolherem dentro de cada um, os seus representantes mais competente e a não se limitarem ao que por vezes parece um mero preencher de cadeiras do parlamento. Desaparece o mito das maiorias absolutas de um partido que faz à partida o que lhe dá “na gana” sem ter que prestar contas a ninguém. No fim, acho que ganhamos todos. Esperemos que o preço a pagar por este “agradável passeio” não seja muito alto. A Costa, não lhe resta outra solução senão correr e correr para não chegara lugar algum. As negociações para que se atinjam consensos entre partidos tão diferentes ideologicamente (alguns) darão com certeza uma grande “trabalheira”. Mas afinal, se os representantes das pessoas, que incorporam os partidos, não estão na política para isso, estão lá para quê afinal?

Tenho toda e a mais completa certeza de que não morreremos todos no dia em que Costa assumir o governo deste Portugal que é de todos e para todos nós. Assim como a direita e a esquerda somos todos nós, ainda que muitas vezes, demasiados de nós o esqueçamos.

Viva Portugal, que somos nós todos e que nenhum de nós se demita de o defender em todas as alturas.

Nuno Drummond