Tinha-me prometido não falar de política nestas crónicas, assim, directamente, da política pura e dura, daquela que se vai fazendo por aqui (e por ali).

Li uma vez, a propósito do novo dono da bola, que agora, livre das agruras de ser Presidente da Câmara de Lisboa, está finalmente a fazer aquilo de que mais gosta – política. Afinal ser Presidente de uma Câmara não é suficiente para “fazer política”, segundo o articulista - desenganem-se os presidentes de Câmara que ainda julgam que administrar o seu território, cargo para o qual foram eleitos é fazer política, mesmo se uma eleição é parte integrante de um quadro político.

Li esta frase logo depois das últimas eleições (4 de Outubro de 2015), e não a entranhei logo à partida. Mas os dias foram passando e lá fui percebendo os porquês da afirmação.

“Fazer política”, pelo que percebo e deduzo, é outra coisa, é exercer a arte de chegar ao poder a todo o custo, olhando somente de soslaio para os meios, para que não interfiram nos seus fins.

Tinha-me prometido não falar da política pura e dura nestas crónicas de opinião, mas através delas alertar, criticar, provocar quiçá, às vezes de uma forma mais explícita, outras mais subtil, alguns dos agentes da política pura e dura para realidades que porventura o seu afã não os deixa entender na sua plenitude.

Lembrei-me então do velho ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, o que quer dizer que se fizer como eles, estarei perdoado (como bem sabemos e sentimos na pele, o que mais fazem os actores da política pura e dura é faltar a promessas feitas, em tom muito sério e aparentemente cumpridor quando em campanhas eleitorais, mas que entram no rol dos esquecidos no dia a seguir a serem eleitos, passando aí a se lembrarem muito bem das promessas dos seus adversários políticos e quais as que não estão a cumprir), e então decidi não cumprir a promessa que tinha feito a mim próprio (de uma forma política, isto é, com a consciência de que não cumprir promessas faz parte do dia-a-dia da política pura e dura).

Vamos então falar de política.

Mas antes, recordei-me daquela figura que existiu na nossa juventude - “o dono da bola”.

Quem é que nunca teve de jogar com “o dono da bola”? O dono da bola era sempre o pequeno que, não tendo muito jeito para o jogo da bola, tinha, era proprietário do utensílio que estava em falta aos outros pequenos para uma boa jogatana: a bola, pois claro.

“Dois muda e quatro ganha”, quando a sua equipa estava a ganhar mas, se depois de mudar já estava 3-0, então: “3 muda e seis ganha” a ver se dava para alguma reviravolta, ou inventava uma outra qualquer regra – “passo a guarda-redes e back”, para ter mais um jogador de campo ou, em desespero de causa “tenho de me ir embora que a minha mãe está chamando”, e lá se ia ele com a bola debaixo do braço. Às vezes ou outros chateavam-se e diziam que assim não jogavam mais, que isto e que aquilo, mas à falta de melhor, lá o metiam outra vez na equipa para poderem ter mais um joguinho.

Os políticos, os da política pura e dura, comportam-se muitas vezes, quando determinados a fazer a política pura a dura, como os meninos rabinos ou mimados que, não tendo muito jeito para a coisa, só porque são os donos da bola acham que podem ditar as leis que querem para conseguir entrar na jogatana.

Afinal não falei de política de uma forma específica, nem de alguns actores que se julgam “donos da bola” e continuo a cumprir a minha promessa.

Mas, mesmo assim, direi que não se engane o menino António a quem lhe foi dada uma bola para brincar, pois também o enganaram.

Afinal o verdadeiro dono da bola não é o menino António (bem queria ele, mas…) e sim aquela menina de aspecto suave e querubínico, Catarina e o seu meio-irmão Jerónimo que, sabendo que ninguém os chamaria para as suas equipas, diligentemente a emprestaram ao menino António, fazendo-o crer que lha estavam a dar, a bola, como presente desde que ele os chamasse para a sua equipa.

“2 muda e 4 ganha”, que pode ser “1 muda e 3 ganha” dependendo de como estiver a correr a jogatana mas, quem sabe se os meninos todos (mais o menino Pedro, o menino Paulo e o menino Aníbal) juntassem as semanadas, não poderiam comprar uma colectiva? P.S. – Para bem de todos nós, desejo as maiores felicidades a António Costa, e espero (vã esperança, estou em crer) que Passos Coelho e Paulo Portas tenham a coragem de admitir que as coisas estão a correr bem, se fôr esse o caso, e que, em sentido inverso, António Costa também tenha a coragem de admitir (e se demitir) que as coisas não estão a correr bem, se fôr esse o caso.

Pedro Melvill Araújo, Médico