A Câmara Municipal de Santa Cruz está novamente confrontada com uma batalha que vem, mais uma vez, colocar em causa aqueles valores que julgamos, talvez ingenuamente, que deveriam nortear a justiça e a política. Diz o povo, e com razão, que quem fala a verdade não merece castigo. No entanto, em política a lógica é uma batata e não raras vezes somos confrontados com situações que primeiro nos deixam surpreendidos e depois com uma grave sensação de injustiça.
Desde que tomei posse e herdei uma dívida de contornos astronómicos e grande parte assumida de forma ilegal, tentei eleger a transparência, o rigor nas contas públicas como prioridades, alicerçadas na certeza de que não seria o povo a pagar os desvarios de quem governou esta autarquia de forma irresponsável e criminosa. Pensei, e ainda penso, que esta é a melhor forma de atuar.
No entanto, uma coisa são as minhas convicções e outra bem distinta são as lógicas que norteiam o Estado. O que até agora tenho verificado é que o castigo é dado aos que tentam corrigir os erros, enquanto que quem os cometeu sai impunemente. Castiga-se quem está a obter resultados, apenas porque esses resultados não foram feitos à conta de sacrifícios humanos, na lógica vigente de que a má gestão dos políticos deve ser paga pelo povo.
Assumi, e continuarei a assumir, que não estou a cumprir o PAEL no que respeita à obrigatoriedade de colocar taxas e impostos no máximo, porque entendo que o povo já tem sido suficientemente massacrado por uma classe política que quer corrigir os seus erros, mantendo os privilégios de uns tantos e esmagando quem trabalha.
Não contem comigo! E não vergarei mesmo que os resultados sejam o não envio da terceira tranche do PAEL, e a condenação de devolução das verbas já recebidas à conta de um instrumento grande parte destinado a saldar dívidas a empresas do sector público.
Continuarei a ser teimoso e desobediente, porque, ao contrário dos que me antecederam, estou a incumprir em nome dos que me elegeram e não a cometer ilegalidades em nome de interesses e de amiguismos pouco claros.
Recuso que a justiça dos que nos governam se resuma a esta perversidade de deixar fugir o infractor e castigar quem actua de forma transparente, na tentativa de recuperar o que foi desbaratado. E se é verdade que não estamos a ir pelo caminho que o PAEL nos indicou, não é menos verdade que os resultados estão aí, com redução da dívida, redução dos prazos de pagamento e maior transparência nos actos públicos. E isto são factos e não estados de alma.
Filipe Sousa