Num destes dias soalheiros de outono, ao vaguear por locais, onde durante 30 anos exerci a minha atividade como Professor do Ensino Básico, revi alunos, hoje homens e bons amigos, partilhámos histórias de momentos vividos, das suas aspirações de juventude. Escutei desabafos e percursos de vida saudáveis e de felicidade, outros pelo contrário, seguiram rumos diferentes, caíram nas malhas da toxicodependência.
A partir desse momento pensei que tinha encontrado um tema a desenvolver para um trabalho de opinião e de reflexão. Um grito e um alerta para os graves perigos que muitos jovens enfrentam, quotidianamente, um assunto que é abordado constantemente pelos órgãos de comunicação social com a apreensão de grandes quantidades de estupefacientes em diferentes localidades, e que nos últimos anos, tem causado enorme preocupação e gravidade nas nossas comunidades e em algumas famílias.
Entre os fatores contribuintes destacam-se a crise de valores da juventude, nas sociedades de consumo, escassas perspetivas futuras e a crise das estruturas sociais, em particular, a família, os lucros proporcionados pelo comércio e tráfico ílicito da droga. O uso de drogas, expressão de uma profunda amargura existencial do homem moderno, nomeadamente, da juventude, vem assim constituindo um fator de desorganização e de destruição da pessoa e da sociedade. Com efeito a situação de inaptação ,de conflito na estrutura familiar, de ócio laboral e escolar, fundamentalmente, de insegurança social que carateriza a atual juventude, constituem condições de elevado risco para uso da droga.
Segundo as estatísticas o problema da droga em Portugal assumiu proporções preocupantes no último decénio, particularmente, nos últimos anos, devido à razão de ordem conjuntural, entre os quais, avultam a elevada crise de desemprego e uma certa tibieza de costumes, reencontro com as liberdades, isto é, de transição duma sociedade repressiva para uma demasiada permissiva.
Há um enorme trabalho a realizar com os pais, porque é conhecida a sua solidão e angústia perante o problema. Os educadores, os mestres, a polícia Judiciária e de Segurança têm tido um papel ativo na repressão da droga. Os mass-média têm procurado informar contra esta praga social com coerência e uma objetiva e verdadeira informação.
Os últimos dados que conseguimos apurar, dizem-nos que a cocaína é a droga que mais ameaça os países do mundo ocidental. Mais recentemente a flakka (nome comercial da Alpha-PVP) entra no mercado de drogas ilegais na Madeira, adquirida através da Internet, e chega por circuitos tradicionais de distribuição.
Os efeitos estimulantes provocam de início um sentimento de força e uma grande satisfação. Não é de um momento para outro que uma droga se transforma em flagelo, numa epidemia de prazer. A pouco e pouco, se vai convencendo a sociedade não só da necessidade de se drogar,mas também como de não poder passar sem isso.
Os alertas continuam a ecoar dos nossos responsáveis regionais da(UCDA)Unidade Operacional de Intervenção em Comportamentos Aditivos e Dependências, das famílias, dos professores, da comunidade, na aposta forte em ações de prevenção.
O desporto é um antídoto à droga. Quem se droga tem infelizmente um escasso afeto pelo seu próprio corpo, por si mesmo em geral, enquanto que a cultura desportiva é caraterizada exatamente pelo respeito e afeto por si mesmo, premissa essencial para procurar continuamente conhecer-se e melhorar-se.
A prática desportiva envolve liberdade e competição, cooperação, enquanto que quem se droga procura outros caminhos e fugas dramaticamente reais. É importante fazer compreender ao jovem que a competição em si faz parte das relações sociais se for corretamente praticado.
A droga pode bater à porta de qualquer jovem que não esteja precavido, preparado e entrar num universo onde se confundem o sonho e a realidade e destruir todo o potencial de vida que no adolescente é tão rico, entrando num mundo sórdido da maior decadência humana.
Atentos e empenhados devemos estar no combate intransigente ao comércio e consumo de estupefacientes, cada vez mais diversificados e camuflados que continuam a destruir a nossa riqueza que é a juventude .
Belarmino Rodrigues, Professor