Enquanto cidadã de uma sociedade livre, democrática e tolerante, fui imbuída dos valores que sustentaram a revolução de Abril, sem nunca abandonar as raízes da minha educação cristã. Ambas as fontes contribuíram para que eu, assim como muitos jovens da minha geração, vivenciasse e valorizasse valores como a solidariedade, a cooperação, a empatia pelo próximo, a compaixão, o livre pensamento, entre outros.
A própria matriz do sistema educativo era sustentada, em termos teóricos, por estas premissas, que moldaram o pensamento e caráter das pessoas. Só pecou, do meu ponto de vista, pela menorização do sentido de responsabilidade pessoal e cívica que deveria ter sido mais valorizada. A liberdade deve ser concedida em proporção ao nível de responsabilidade e maturidade de um indivíduo.
O que me preocupa, neste momento, é que o nosso sistema educativo dá sinais de contradição permanente. Por um lado, preconiza a cooperação, mas introduz elementos de competição, seja entre professores, seja entre alunos, por via da avaliação. Diz que é importante promover a disciplina e a responsabilidade, mas permite-se, todos os dias, que docentes, funcionários e alunos sejam vilipendiados impunemente. Promove o mérito, segundo padrões pré-estabelecidos, mas também preconiza o respeito pelas capacidades e percursos individuais. E assim por diante.
O sistema educativo regional precisa de definição e coerência. O Presidente do Governo, aquando do debate mensal sobre Educação, no dia 20 de novembro, afirmou que a escola na Região tem um “passado triste”. Esta é uma afirmação de quem se quer demarcar do que foi feito nos anos transatos, num ato de sobranceria por um passado que também é seu. No entanto, dali não vimos projetar nada de novo para o futuro. Afinal, o que pensa este Governo sobre o sistema educativo regional, para além de considerar muito importante o mérito académico, de advogar a liberdade de escolher uma escola, seja pública ou privada, e de reconhecer o valor dos professores?
Na base da arquitetura de um sistema educativo há perguntas que se impõem: Que cidadãos queremos formar? Que instrumentos e caminhos deve o sistema facultar para que cada jovem possa realizar-se e alcançar o seu mérito pessoal? Que posicionamento deve ter o governo sobre o papel do Estado na Educação? Quais os objetivos a alcançar?
Sem negar o passado, urge projetar o futuro do sistema educativo regional com coerência e solidez, tendo por base o conhecimento da nossa realidade e idiossincrasias.
Sofia Canha