1. É certo como o destino que a pergunta vai ser feita, no início de qualquer conversa com alguém que não conheço e que acaba de me ser apresentado, quando se apercebe que o meu sotaque encerra uma origem não continental. Uma vez mais o episódio repetiu-se, desta feita em Maputo, a oito mil quilómetros de distância, uma antiga província ultramarina portuguesa e hoje uma cidade de múltiplos encontros que junta chineses, sul-africanos, indianos, brasileiros e claro muitos portugueses. Um jovem empresário local, durante um almoço que reuniu uma delegação portuguesa e outra moçambicana, disparou à queima-roupa, depois de os meus companheiros de viagem terem denunciado a minha origem: “Estudei em Lisboa, conheço relativamente bem Portugal, mas nunca fui à Madeira, e agora sinto-me dividido em escolher primeiro os Açores, porque as tarifas aéreas estão mais baixas”. Perante uma assistência numerosa de amigos continentais, vi-me, como acontece muitas vezes, na obrigação de defender a minha dama, a minha “terra mater”, fazendo-o mudar de ideias rapidamente. As opiniões, para não variar, dividiram-se e a discussão, amistosa, mas intensa acalorou-se à medida que se iam esgrimindo as vantagens e as mais-valias de se visitar primeiro um dos arquipélagos ao invés do outro. Eu, de um lado, enumerava as maravilhas da minha região, a beleza das suas paisagens, a hospitalidade das suas gentes, o mar fantástico e calmo, o clima temperado e pouco dado à instabilidade tão frequente que assola as ilhas açorianas, para além do excelente parque hoteleiro e da oferta gastronómica diversificada. Artilhei-me de argumentos e enumerei-os, afincadamente, para convencer aquele jovem moçambicano a não hesitar na hora de reservar o destino atlântico, apesar de espicaçado pelos meus companheiros de viagem que queriam a toda a força resumir a Madeira a túneis sem fim e a praias de calhau. “Conhece-se num dia”, sintetizaram, sublinhando que os Açores eram mais verdes e “mais natureza”. Expliquei, com redobrada dose de paciência que a Madeira também tem paisagens maravilhosas, um percurso único de levadas que rasga o seu interior, que oferece aos caminheiros cenários deslumbrantes, de cortar a respiração. Obviamente que me socorri do bolo do caco, da poncha, da espetada em pau de louro, das lapas, passando pelo excelente vinho e outras iguarias, que deixaram aquele moçambicano rendido. Bairrismos à parte – até porque sou um visitante assíduo dos Açores – estava perante um desafio desigual. A minha origem fala sempre mais alto, mas começa a ser muito frequente atualmente dizer-se que a Madeira é betão e que os Açores são natureza. Os que conhecem bem as ilhas sabem que não é assim, mas a ideia começa a cristalizar-se e temos de a combater. Voltando ao moçambicano julgo que o consegui convencer. Pelo menos já me pediu que lhe enviasse um guia para uma semana de estadia na Pérola do Atlântico. Espero, apenas, que a tarifa aérea não o demova na hora de concretizar a reserva. 2. Num momento marcado pela comoção dos ataques terroristas a Paris, permanecemos no impasse. Aguardamos, há tempo demais, por uma solução do senhor Presidente da República. A meio da turbulência política em que o país está mergulhado, Cavaco Silva rumou à Madeira e aí permaneceu dois dias no âmbito do seu roteiro para uma Economia Dinâmica. É positivo que o Chefe de Estado conheça as potencialidades da Região e o seu fulgor empresarial, mas atendendo ao ruído instalado o que se reteve da famigerada visita foram as miseráveis considerações do Prof. Cavaco sobre a nossa banana, um dos maiores ex-libris regionais e sobre o dourado, uma espécie de peixe “que não é o macho da dourada”...Hilariante. Sobre a banana meteu a pata na poça, literalmente. Considerou-a “maior” e mais “saborosa”. Se estamos entendidos quanto à segunda apreciação, em relação à primeira queremos que o nosso fruto continue a ser conhecido pelo seu tamanho reduzido. É a marca que o distingue das uniformizadas bananas da América Latina. Enfim, nada de novo em relação ao político que “nunca se engana e raramente tem dúvidas”. A deslocação à Madeira serviu, ao menos, para pulverizar as redes sociais com imagens humorísticas (para não classificar de outra forma) de Cavaco Silva com a banana da Madeira. As visitas de qualquer presidente são bem-vindas, apesar de nos temas estruturais - e muitos são os que afligem a Região – o ainda inquilino do Palácio de Belém não ter dito uma única palavra. Estamos todos exaustos deste taticismo político que nos impingem. Queixem-se depois de que os portugueses estão cada vez mais distanciados da politica e que a abstenção aumenta a cada ato eleitoral.

Roberto Ferreira