“A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português (…) de abrir caminho para uma sociedade socialista…”, reza o preâmbulo da nossa Constituição. Ainda que simbólico do espírito pós-25 de Abril e reserva histórica da passagem de Portugal à democracia, o preâmbulo da nossa Constituição impõe-nos uma pergunta de surpreendente actualidade: qual a relevância da ideologia e dos partidos de esquerda nos dias de hoje? Comecemos pela ideologia. O socialismo, enquanto modelo de organização económica e social, tem a sua relevância prática limitada aos quatro países que oficialmente o aplicam – China, Cuba, Vietname e Laos. À primeira vista, contar com a 2ª maior economia do mundo nas suas fileiras parece um ponto a favor, no entanto, qualquer semelhança entre a economia chinesa e o modelo económico socialista é pura coincidência.

Aliás, para encontrarmos alguma semelhança entre um e outro, teríamos de recuar ao ano de 1978, altura em que uma economia planificada, ao estilo socialista, garantia à China o 135º lugar entre as maiores economias do mundo, a par do Burundi e do Nepal. Confirmados os resultados do socialismo ao nível económico, vejamos o seu efeito nos partidos de esquerda. Para isso, voltemos à crise económica de 2008. Por um lado, a associação que os eleitores fizeram entre os governos de esquerda moderada – como o PS e o PSOE – e o início da crise, com reflexo nas previsíveis derrotas eleitorais por toda a Europa.

De seguida, a incapacidade da esquerda moderada em apresentar soluções credíveis e alternativas às propostas de rigor orçamental implementadas pelos partidos de direita. Vejamos a recente derrota dos trabalhistas no Reino Unido, a derrota do Partido Socialista em Portugal ou as sondagens negativas para Hollande, em França. Ora, o vazio criado pela esquerda moderada, criou espaço para o surgimento da esquerda radical, colocando o aumento de salários e redução de impostos em cima da mesa – e o aumento da dívida pública escondido por baixo dela. É este o actual dilema dos partidos de esquerda, a dificuldade de aplicação do seu discurso político quando são chamados ao governo de um país – alguém se lembra da promessa de eletricidade gratuita do Syriza?

João Paulo Marques