O próximo governo do País, seja ele qual for, dificilmente sobreviverá ao desgoverno daquele que lhe precedeu, cujo ciclo se iniciou há quatro anos, com marcas vivas, dificilmente cicatrizáveis na pele. Os últimos quatro anos foram radicais, não apenas no discurso, como nas dificuldades impostas à maioria dos portugueses e até na confrontação institucional, como são disso exemplo, a acareação hostil e permanente com a Constituição. Cavaco Silva ajudou ao limite do razoável, a permanência do governo de direita nos destinos do país, que acabou dinamitando as derradeiras pontes que poderiam ser remendadas com o PS, naquele condoído discurso de fel que atirou à esquerda portuguesa, marginalizando-a e o seu numeroso eleitorado, do qual Cavaco ainda é (ou deveria ser) o presidente de todos. As capacidades de predestinação de Cavaco e a democracia do Povo, chocaram entre si, deixando soltar uma incómoda nuvem de realidade. E o concreto é que o chamado arco-da-governação, não parece ser mais um exclusivo do PS, PSD e CDS. Há muito voto para além desses partidos, tão válido como outro qualquer. (O “Centrão” esgotou-se?).

Não tenho uma leitura deleitosa do potencial duma coligação de esquerda, e muito menos lírica, do arrumar do PREC, e do desanuviamento da dor de parto da esquerda portuguesa na fase embrionária da nossa democracia. Contudo, reconheço a evidência dum novo tempo, ou pelo menos, uma tentativa de atenuar as feridas ocorridas entre as datas escaldantes do 25 de Abril e o 25 de Novembro de 1975.

O cobertor ganho a 4 de Outubro por Passos e Portas, ou tapa os pés, ou tapa a cabeça. Não tapa tudo como dantes, pois a maioria foi curta. E as maiorias fazem-se no Parlamento. Pois, elegem-se deputados. Costa, um perdedor hábil, com os “demoníacos camaradas da esquerda”, preferiu juntar os retalhos de pano variado, e assim ensaiar a criação de uma manta maior, do que o encurtado cobertor da direita que encolheu. Diz-se que só falta coser, escolher o ponto de costura, de forma a aferir a solidez desse (inimaginável) pesponto. Simplificando, temos perante nós uma esboroada manta curta directamente votada, e prometem-nos uma manta de retalhos espalhados pelo chão, sem saber se a costura prometida é sólida. Admira-me que o PCP/PEV enverede nesta aventura, a não ser que, por troca de mínimos, exija faustosos máximos a Costa. Ah, e que o seu eleitorado nem queira rever Passos e Portas “pintados”. Os clichés e anacronismos emaranhados de teias de aranha, que me fazem descrente nesta empreitada de esquerda, podem vir a dar lugar a supostas oportunidades, galvanizadas pela estupidificada ortodoxia árida, de “nós ou o caos”, que atemoriza a plebe cercada pelas ditas inevitabilidades e que assim, force algum eleitorado de esquerda a um hipotético acordo nascido a fórceps, de desconhecida esperança de vida. Cavaco no discurso odioso quando anunciou a (legítima) indigitação de Passos, apenas consolidou com mais cimento, o forasteiro abcesso político de assalto ao poder em formação, que atemoriza e surpreende o conhecido bailado de poder, a que nos fazem dançar há quatro décadas. Os Adamastores da esquerda incitam entre acenos e remadas de esforço titânico, a que se dobre o temeroso Cabo, sempre sob a ameaça de qualquer tormenta, a que a direita; os mercados financeiros; o porto (in)seguro da Europa e até o doméstico Cavaco se esforçam num espalhafatoso despertar, o mortífero poder das águas agitadas.

Costa não está (apenas) a lutar pela sua sobrevivência política. Ele e todos nós evidenciamos que a social-democracia europeia está em acelerado processo erosivo, através dos dogmas a que se deixou submeter, menosprezando a política e a vontade popular, aos ditames da finança de casino. Fazer o mesmo que os demais pares da sua família política, é somar esterilidade ao vazio, no crescente desencontro do seu eleitorado até à “pasokização”. Talvez Costa, assim queime etapas e se evapore com o PS, levando no arrasto as esquerdas do protesto, mas cruzar os braços, e esperar que a vontade passe, é anular e diluir a democracia num cada vez maior caldo, de crise de representatividade. Esse é o dilema deles todos. Correcção: de nós todos! Já escrevi que não rendilho esperanças vãs neste quadro em crescendo, que Cavaco já previra ainda em Fonte de Boliqueime. O actual curso europeu engrossa os nacionalismos e a direita de tendência xenófoba, como expressão da falência do projecto europeu. Olho para os burocratas não-eleitos do centro de decisão europeu, à excepção dos poucos eleitos de Bruxelas e Estrasburgo - que na verdade nada “riscam” de substancial - como uma trupe deprimente e profundamente acéfala, despida de legitimidade democrática, que nos conduz a uma carnificina colectiva, como uma manada de gnus encurralados, numa poça emparedada, com mais crocodilos do que água. Cavaco permitiu que o fósforo se consumisse todo, até lhe queimar os dedos. Talvez assim se perceba a sua expressão infernizada, opaca, fria e desprestigiada ao fim de dois mandatos presidenciais. Para os mais entusiastas desta hipótese ainda imaterializada da coligação de esquerda que nos aparece no radar político nacional, convido a que olhem para a Cidade do Funchal e ao exercício da Coligação Mudança que ainda mancha os funchalenses. A analogia pode ser forçada sob alguns prismas prismas, até porque o maduro PCP manteve-se de fora dessa massa mal fermentada de ingredientes insolúveis. Resultado? Uma aluvião de incompetência, entre motins e rajadas de fogo amigo. Costa apesar de tudo, independentemente de vir a ter muito ou nenhum sucesso nesta sua arriscada cartada - e esta é outra grande distinção - tem um lastro político assinalável, por analogia com alguns rudes imberbes que por aí vegetam sem obra, a que só lhes conhecemos existência, à custa de bisnagas de publicidade paga, com que besuntam pura propaganda para disfarçar inércia. Seria profundamente desastroso se a governação do país, ensaiasse uma aventura de (des)governação nacional - se é que é possível igualar tal absurdo em proporção - como aquela que paralisa o Funchal há dois anos!

As incógnitas são imensas neste momento. Até porque prescindimos há muito, de termos “querer” sobre o nosso destino, alojado algures nos corredores de Bruxelas, Berlim e noutros poderes difusos, sem face nem geografia. Quando o leitor ler estas linhas, Passos e o seu “governo-zombie” já tomaram posse, sob a mira calibrada de Costa e dos demais nubentes desta potencial “ménage-à-gauche”, prontos a disparar em pelotão. Espero que estes pré-condenados caiam de pé, e que Costa seja suficientemente prudente, até porque, (não desejo), mas pode ele próprio, vir a sucumbir por “fogo amigo/interesseiro”, muito mais depressa do que imagina, e assim empacotar, todo o espectro da esquerda portuguesa para uma longa hibernação. Era uma vez o “Centrão”?

Donato Macedo