Na Madeira, Cavaco Silva lembrou, bem, que enquanto primeiro-ministro esteve cinco meses à frente de um governo de gestão. Quererá isto dizer que o Presidente da República não nomeará António Costa? Provavelmente, não. Mas traduz o desconforto sentido pela maioria dos portugueses com esta espécie de assalto ao poder por “parte de parte” do Partido Socialista, tendo por base dois acordos assinados em momentos diferentes, que não podem, de forma alguma, ser apresentados como garantias para uma governação estável, com a durabilidade de uma legislatura. Basta ver que nem o Bloco de Esquerda, nem o Partido Comunista, abdicaram da possibilidade de apresentar moções de censura e que nem um nem outro se comprometem para além dos próximos programa de governo e orçamento de estado.
Mesmo estando longe, muito longe, de ser um “cavaquista”, entendo perfeitamente as preocupações que a solução apresentada por Costa suscitam em Cavaco e reconheço a necessidade absoluta de ouvir diferentes stakeholders políticos, económicos e sociais para perceber aquilo que sentem e para decidir, conscientemente, um caminho. Todos nós, portugueses, passámos por demasiadas dificuldades nos últimos anos para que o nosso futuro imediato seja decidido com base em estados de alma momentâneos, em acordos que no fundo não passam de singelos anúncios de intenções, ou em esquemas mais ou menos bem montados que visam, apenas, a tomada de poder. A decisão de Cavaco tem de ser consciente, ponderada e traduzindo uma visão de médio prazo. Demorará mais tempo do que aquilo que anteviam António Costa e a parte do PS que o apoia? Paciência. Estou convicto que uma governação como aquela que antecipo se o líder do Partido Socialista for primeiro ministro, feita de cedências à extrema esquerda por manifesto receio de perder o poder, será bem mais nefasta ao país do que o tempo de Cavaco.
Nota: Sobre os atentados em França e sobre como nos devemos posicionar face a eles. É fundamental impedir que o medo condicione a nossa forma de vida e as nossas instituições. Por muito que nos custe, a liberdade não pode ceder ao medo traduzido em paranoia securitária. Isto exige que sejamos firmes na defesa dos valores sobre os quais assentam as nossas sociedades, firmeza essa que se deve traduzir internamente, mas também na nossa resposta externa. As guerras ganham-se com firmeza.
Mas não são, não serão nunca, isentas de lágrimas.
Gonçalo Santos