Na semana passada a comunicação social noticiava que o Governo Regional pretende gastar dezoito milhões de euros na reabilitação da Ribeira de São João, também conhecida por Ribeira Grande, no troço compreendido entre o quartel dos Bombeiros Municipais do Funchal e o complexo do Marítimo, em Santo António, com o objectivo de prevenir cheias e aluviões.

Até aqui nada a opor pois as ribeiras devem ser limpas periodicamente. O que se poderá questionar é se será esse o troço que, de momento, deveria merecer mais atenção.

Sou do tempo - e não me considero velho - em que a Ribeira Grande ocupava o seu leito natural em praticamente toda a sua largura. O único obstáculo era a serragem existente no local onde hoje estão um stand de automóveis e uma série de oficinas. Mais acima existiam uma ou duas casitas em zona mais ou menos perigosa.

De há vinte anos a esta parte alguém descobriu uma Venezuela dentro da ribeira. Toca a construir armazéns, sem olhar a questões de segurança, e a alugá-los a empresas de todo o tipo de atividades para quem a segurança é sempre o último dos itens a considerar num negócio. Numa das margens foi construído o campo do Andorinha também em local muito duvidoso no que respeita a questões de segurança.

Mas o mais grave é a britadeira que actualmente está desactivada mas cujo dono se julga dono da ribeira, bloqueando sistematicamente a estrada que lhe dá acesso, até há algum tempo com retroescavadoras e pedras de grandes dimensões, mais recentemente com um portão fechado a cadeado. Em caso de uma emergência envolvendo pessoas, quiçá funcionários seus, como lhes chegará com o socorro?

As margens da Ribeira Grande, especialmente a do lado de São Roque, depois dos incêndios ocorridos em anos recentes, apresentam grande quantidade de árvores queimadas, tombadas no terreno ingreme, esperando que uma carga de água mais intensa as arraste até ao fundo do leito da ribeira, com a agravante de esta carga de inertes se concentrar a jusante do açude construído recentemente e cuja capacidade de retenção, felizmente, ainda não foi posta à prova.

Posto isto, talvez não fosse de má nota mandar estudar se os dezoito milhões deverão ser gastos na sua totalidade no troço definido ou se não seria de reequacionar a sua aplicação, fazendo com que uma parte, quiçá a mais significativa, servisse para promover obras de contenção das encostas e sua limpeza.

Refira-se que a Ribeira Grande ou Ribeira de São João é uma das três grandes ribeiras que desaguam no centro do Funchal e uma das que mais contribuiu para o que foi a aluvião de 20FEV10, ainda na memória de todos nós.

Rui Nunes