Consumada a moção de rejeição ao Programa de Governo PSD/CDS-PP abre-se uma nova forma de olhar a política e os partidos políticos em Portugal. A partir de hoje, quando o eleitor fizer uma escolha sabe que está a fazer uma opção entre dois cami-nhos possíveis: à esquerda ou à direita. A ideia de votar num partido para este ser o mais votado e formar governo esboroou-se. Ou há uma maioria absoluta, ou então entra-se no mundo da negociação e dos acordos parlamentares. Há, a partir de hoje, uma alteração sem precedentes na geografia política Portuguesa. Depois de 40 anos de governos PS, PSD e CDS-PP passam a existir dois novos atores, PCP e BE, na gover-nação de Portugal. A confirmarem-se as informações veiculadas na imprensa, o futuro Governo de Portugal será um Governo do PS com o apoio parlamentar do PCP e BE. Estes dois partidos ainda não quiseram assumir o compromisso de governar, mas já assumem o compromisso de apoiar um governo do PS, ficando ligados aos sucessos ou insucessos do futuro governo. A derradeira palavra cabe ao senhor Presidente da Re-pública que tem o poder de manter o actual governo em gestão ou nomear um Gover-no do PS com o apoio parlamentar de toda a esquerda.

Se o cenário de um governo de esquerda se efectivar julgo que a maior preocupação dos Portugueses resume-se a esta frase – entendam-se, e façam bem as contas. A si-tuação do país continua a ser muito exigente em matéria de finanças públicas. Fundir três programas de governo num só não é um exercício fácil a nível financeiro. A maior imagem de credibilização que as esquerdas podem dar perante o país é não repetir os erros do passado, em matéria de finanças públicas e coesão dos partidos na governa-ção. Em primeiro lugar contas certas. Ninguém tem dúvidas da justeza de devolver salários e pensões, bem como, de baixar impostos potenciando o crescimento econó-mico e a criação de postos de trabalho. Neste equilíbrio é obrigatório que a despesa bata certo com as receitas do Estado, sem aumentar a dívida e diminuindo o défice. Em matéria da acção governativa o suporte parlamentar é crucial para o sucesso des-te governo. Os acordos entre os partidos de esquerda tornados públicos são, à pri-meira vista, frágeis porque deixam matérias como os Orçamentos e Finanças públicas para negociações futuras. Estas fragilidades podem ser uma força se, da parte dos três partidos, todos perceberem que se este governo falhar na sua acção toda a esquerda pagará um preço demasiado alto junto dos Portugueses.

Victor Freitas